Falando russo: intelectuais burgueses lançaram bases para revolução

Publicado em 12/07/2018 por Folha de S. Paulo Online

No século 5º de nossa era, enquanto Roma minguava na luta contra as incursões germânicas, os eslavos espalhavam-se pelas florestas e estepes do Leste Europeu. O limes —a fronteira do moribundo Império Romano— jamais se aproximaria dos territórios que hoje formam a Rússia.

Essa distância do mundo mediterrâneo, aliada à posterior conversão dos russos ao cristianismo ortodoxo, evitou que a língua dos romanos tivesse grande influência na região. Cheio de helenismos e germanismos, o russo tem uma quantidade relativamente pequena de palavras do latim. No entanto, um dos vocábulos russos que se tornaram internacionais é justamente de origem latina: intelligentsia.

Entre nós, o termo é usado para designar a classe intelectual de um determinado país, sem necessariamente apontar para a inclinação política de seus membros.

Na Rússia, até meados do século 19, a palavra possuía significado semelhante, mas a partir de então ela ganha conotações mais complexas: a produção intelectual do membro da intelligentsia russa aliava-se sempre à política. Esse intelectual engajado procurava interpretar a cultura e a história e buscar alternativas ao regime autocrático do tsarismo. Para muitos, o protótipo do intelligent —o membro da intelligentsia— foi o crítico literário Vissarion Bielínski (1811-1848), cujas ideias, ditas ocidentalizantes, tiveram grande impacto à época.

Antes composta por nobres, a intelligentsia foi aos poucos dominada pelos raznotchíntsy, intelectuais de origem pequeno-burguesa que defendiam posições mais radicais. Essa nova geração lançou as bases teóricas dos movimentos que, no século 20, fariam a revolução e mudariam o panorama político da Rússia.