FMI alerta para aumento de riscos aos emergentes

Publicado em 11/10/2018 por Valor Online

FMI alerta para aumento de riscos aos emergentes

Firdia Lisnawati/AP

Christine Lagarde, diretora-gerente do FMI: pressão sobre emergentes e possibilidade de correções nos mercados

Os riscos de uma crise para os mercados emergentes têm aumentado, avalia o Fundo Monetário Internacional (FMI) no mais recente relatório de Estabilidade Financeira Global. Segundo o órgão, os resultados sugerem que a chance de uma fuga de capital na mesma magnitude vista durante o colapso financeiro de 2008, embora ainda pequena, já surge no horizonte de médio prazo, o que significa ter potencial de se concretizar em um período entre quatro e oito trimestres.

De acordo com o relatório do FMI, "os resultados sugerem que, no médio prazo, os riscos de saída mais intensa de capital dos emergentes vão ser direcionados pela elevação de taxas de juros nos EUA, pelo fortalecimento do dólar e pela diminuição da inclinação pelo risco".

O órgão estima atualmente em 5% a probabilidade de uma fuga líquida de até US$ 100 bilhões dos portfólios em um ano, ou seja, o equivalente a 0,6 ponto percentual do PIB combinado dos países do grupo, sem considerar a China. O FMI pondera que "a projeção de saída de recursos dentro desse cenário é muito maior do que, por exemplo, no quarto trimestre de 2011, dentro da crise de dívida soberana europeia".

O fundo ressalta, no entanto, que as economias emergentes, no geral, podem passar as turbulência de curto prazo "sem choques severos para seus sistemas financeiros". Conforme o órgão, a recente piora das condições financeiras globais tem impactado os emergentes de maneira contida e "fatores idiossincráticos explicam muito do exagerado movimento dos preços de ativos".

Segundo o FMI, o aumento dos "spreads" dos títulos em dólar tem sido mais pronunciado nos emissores de ratings mais baixos. "Isso sugere que os investidores têm diferenciado os tomadores de recursos baseados nos fundamentos econômicos e outros fatores específicos de cada país."

O relatório do FMI aponta ainda que as fortes depreciações de moedas em alguns mercados emergentes, como Argentina e Turquia, "podem ser amplamente explicadas pelos fatores internos" de cada país. Por outro lado, alguns países sobre os quais existe uma percepção política positiva, como México e Colômbia, "conseguiram compensar parcialmente as pressões de desvalorização globais".

O FMI também ressalva que a maior parte dos emergentes ainda mantém o crescimento, embora a perspectiva de expansão tenha sido reduzida diante do aumento das tensões comerciais, da alta do dólar e da elevação de juros nos Estados Unidos.

A diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, alertou em discurso na semana passada sobre a elevação de pressões sobre os emergentes e a possibilidade de ocorrer correções de mercado, com movimentos bruscos de taxas de juros e enfraquecimento do fluxo de capital.

O aperto das condições financeiras e a subida do dólar tendem a afetar mais os países mais dependentes de financiamento externo, ponderaram os especialistas do FMI. "O cenário não é inevitável, mas as vulnerabilidades [de várias economias emergentes] ainda permanecem altas."

Na avaliação do fundo monetário, as condições financeiras atuais no mundo ainda permanecem acomodatícias e os juros baixos, se olhados pelas médias históricas. Mas a normalização de política monetária conduzida ou sinalizada pelos principais bancos centrais já levou a mudanças em relação a seis meses e o aperto tende a crescer.

Embora não esteja no cenário base do órgão uma mudança súbita de condições financeiras, o FMI alerta para riscos com potencial de mudar o panorama. Segundo o fundo, uma escalada das tensões comerciais para um nível considerado sistêmico seria um risco ao crescimento global. Outro cenário ameaçador está ligado a uma elevação das incertezas políticas, com impacto sobre a confiança dos mercados, como, por exemplo, um aumento de preocupações sobre equilíbrio fiscal em países endividados da zona do euro, ou temores relacionados a um Brexit duro.

Um dos maiores perigos estaria ligado a um ritmo mais acelerado de normalização da política monetária nas economias avançadas, especialmente nos EUA, que podem levar a um repentino aperto nas condições financeiras globais, situação que poderia ocorrer, por exemplo, no caso de uma alta acima do esperado da inflação americana causada pela política fiscal estimulativa ou pela elevação de tarifas de importação.

O FMI também alerta para a possibilidade de um ajuste abrupto de preços de ativos globais, à medida que "a valorização parece esticada em vários mercados, notadamente nos Estados Unidos". E uma reavaliação das condições financeiras atualmente favoráveis poderia levar a uma reprecificação rápida nos mercados.