Listagem em bolsa estrangeira é a maior desde 2014

Publicado em 11/10/2018 por Valor Online

Listagem em bolsa estrangeira é a maior desde 2014

O número global de ofertas públicas iniciais de ações (IPO, na sigla em inglês) no terceiro trimestre caiu 22% em comparação ao mesmo período do ano passado, para 302. O volume financeiro, no entanto, aumentou 9% para US$ 47,1 bilhões. O que caracterizou o período, conforme um estudo da consultoria EY, foram as listagens em países diferentes da origem da empresa, as chamadas operações "cross-border", que responderam por 11% dos IPOs - a maior participação em um trimestre desde 2014.

No acumulado do ano, as operações cross-border representaram 9% das ofertas iniciais. A média nos últimos três anos foi de 7% de IPOs entre fronteiras. A principal explicação, conforme os especialistas, é que as empresas preferem ir atrás dos chamados "bolsões de liquidez" e apresentar suas histórias, ao invés de ficar no mercado local - onde são conhecidas, mas têm acesso a um grupo limitado de investidores e muitas vezes não contam com pares no setor, o que torna difícil para o mercado um referencial de desempenho.

O principal destino das companhias que buscam listagem no exterior continua sendo as bolsas americanas Nyse e Nasdaq. As duas somaram 15 ofertas desse tipo no trimestre, incluindo a única oferta inicial de uma companhia brasileira no período. A cearense Arco Educação abriu capital na Nasdaq em setembro e, desde então, tem valorização de 21,5%. Em janeiro, a também brasileira PagSeguro optou por listagem na Nyse e, no quarto trimestre, a Stone pretende estrear na Nasdaq, aumentando a conta das listagens no exterior.

A justificativa das três empresas brasileiras para migrar para mercados acionários internacionais é justamente a busca de investidores especializados em tecnologia. Conforme executivos dessas companhias, esse perfil de investidor acessa muito pouco o mercado acionário brasileiro diretamente, o que torna necessária a listagem nos Estados Unidos para ampliar a exposição da companhia.

Conforme a EY, Londres também permanece entre as opções mais populares. Mas há um interesse crescente pela bolsa de Hong Kong, especialmente de empresas do Sudeste Asiático, graças a um ambiente regulatório mais favorável à bolsa, segundo o estudo. No terceiro trimestre, foram três "mega IPOs" em Hong Kong, fazendo com que a bolsa fosse a de maior atividade no período, com 55 IPOs com volume de US$ 23 bilhões - nos Estados Unidos, foram 47 IPOs, no montante de US$ 11,9 bilhões.

As ofertas de grande porte foram da China Tower Corp, de telecomunicações, que levantou US$ 6,9 bilhões; da Xiaomi Corp, do mesmo setor, de US$ 5,4 bilhões, e da Meituan Dianping, de tecnologia, que movimentou US$ 4 bilhões. "Embora o número de ofertas esteja menor, são grandes captações, de grandes empresas ou unicórnios", diz Guilherme Sampaio, diretor de transações corporativas e líder da área de IPOs da EY. "São empresas disruptivas, com modelos de negócios inovadores, que chamam atenção do mercado e atraem capital", completa.

O setor de tecnologia respondeu por quase 30% das ofertas totais e deve continuar com participação relevante nos próximos trimestres, conforme a EY. O estudo destaca que as ações das estreantes têm registrado valorização nos primeiros dias de negociação - o que anima o investidor a entrar na rodada de captação inicial. "Isso acaba se sobressaindo em relação aos receios sobre tensões comerciais entre Estados Unidos e China, por exemplo", ressalta Sampaio.

O grupo dos unicórnios ajudou a movimentar bolsas que vinham apresentando volumes menores de ofertas nos últimos anos - caso da bolsa do Japão, que teve dois IPOs de unicórnios este ano, um deles no terceiro trimestre. A Mercari, site de comércio semelhante ao Mercado Livre, havia se listado em junho e a MTG Co., fabricante de produtos de beleza e aparelhos para atividades físicas, fez sua listagem em julho. As duas entraram no segmento Mothers, específico para startups.

"Mudanças regulatórias para apoiar startups e o foco do governo em inovação deram início á era dos unicórnios no Japão", ressalta Shinichiro Suzuki, líder de IPO da EY no Japão.

No acumulado do ano, o volume de negócios aumentou 27% e de operações, 41%. "O quarto trimestre deve ser o mais ativo do ano, globalmente. No Brasil, esperamos uma retomada de atividade, mas principalmente de registros de IPOs, que vão sair de fato no começo de 2019", diz Sampaio.