Maior clareza política abre espaço para queda do juro longo na semana

Publicado em 11/10/2018 por Valor Online

Maior clareza política abre espaço para queda do juro longo na semana

Após semanas em firme alta, as taxas de juros de longo prazo começam finalmente a ceder reagindo à maior visibilidade sobre a configuração do ambiente político a partir de 2019. Os investidores ajustam as suas posições, mas as apostas ainda não são estruturais e continuam com características de curto prazo dadas as incertezas.

Por trás da melhora recente está o grande número de votos recebidos pelo candidato Jair Bolsonaro (PSL) no primeiro turno das eleições presidenciais e o fortalecimento do seu partido no Congresso. Para se ter ideia da magnitude de queda, tanto os contratos de juros prefixados quanto os títulos públicos indexados à inflação voltaram para patamares do fim de maio, quando as taxas estavam em trajetória de alta diante da fragilidade do governo atual com a greve dos caminhoneiros e com as dúvidas do mercado sobre a atuação do Banco Central (BC) para conter a volatilidade do câmbio.

O movimento recente de melhora começou já na última semana à medida que as pesquisas de intenção de voto mostravam o fortalecimento de Jair Bolsonaro em relação a seu principal adversário, Fernando Haddad (PT). Mas foi intensificado entre segunda e terça-feira, com a confirmação de uma vantagem ainda mais ampla no primeiro turno da eleição.

Apenas nos dois dias, para se ter ideia da melhora, o contrato de DI para janeiro de 2025 teve queda na taxa de 0,71 ponto percentual, passando de 11,32% na semana passada para 10,61% ao ano na terça. A NTN-B com vencimento em 2050 saiu de uma taxa de 5,75% para 5,40% na mesma base de comparação.

Ontem o dia foi de realização dos ganhos recentes, com as taxas dos ativos fechando com leve alta. O contrato de DI para janeiro de 2020 terminou o pregão regular cotado a 7,70%, ante 7,61% no ajuste anterior, o DI janeiro para 2021 subiu para 8,73%, ante 8,64% do ajuste anterior, e contrato para janeiro de 2025 fechou a 10,67%, acima dos 10,59% no ajuste anterior.

Mas a visão de gestores é de que o movimento de melhora deve continuar. "O mercado se antecipa e precifica uma probabilidade alta de vitória de Jair Bolsonaro, que tem características reformistas, por isso a ponta longa está fechando bem. Acredito que o otimismo deve continuar, ainda tem prêmio para queimar", afirma Carlos Eduardo Eichhorn, diretor de gestão de recursos da Mapfre Investimentos.

Paulo Clini, responsável pela área de investimentos da Western Asset, explica que os investidores estavam se concentrando nos contratos mais curtos de juros, por causa do alto grau de incerteza com as eleições. Como o cenário começou a ficar mais claro e o prêmio dos contratos estava muito alto, os investidores começam a aceitar o risco e passaram a alongar o horizonte de investimentos para vencimentos como 2023 e 2025. A demanda maior pelos prazos longos faz com que as taxas caiam e parte do prêmio de risco seja reduzido.

O movimento dos juros ganha inclusive destaque na comparação com o ajuste de outros mercados, como o de câmbio. Isso porque o prêmio na curva era mais alto do que em outros segmentos, e a melhora tende a ser mais intensa com o direcionamento das reformas estruturais de que o país precisa.

Embora a tendência seja de redução das taxas dos vencimentos mais distantes, o movimento ainda é inicial - tem característica tática, não estrutural. Isso significa que o investidor vê gordura para queimar e entra apostando na venda em DI ou compra títulos públicos com prazo longo, prefixados ou indexados à inflação. Como as incertezas ainda são grandes, as posições são pequenas e sempre que o gestor tem a possibilidade de realizar lucro no curto prazo, ele o faz.

Essa estratégia de curto prazo só deve mudar quando o candidato for, de fato, eleito e indicar os primeiros passos em direção das reformas, segundo Marcelo Mello, vice-presidente de investimentos, vida e previdência da SulAmérica. "Isso vai mudar quando Bolsonaro for eleito e der mais clareza sobre seu governo. Hoje o foco está muito grande na equipe econômica, em quem vai sentar nas cadeiras do Banco Central e do Ministério da Fazenda. Quando ele começar a conduzir o processo de indicação de cargos-chave, vai dar uma amostra de como deve ser seu governo", afirma. "Nossa estratégia é esperar e, enquanto isso, mantemos posições pequenas", completa.

"A preocupação é se esse governo aprovará ou não as reformas necessárias para colocar o país na roda do crescimento. Para mim, é preciso ter alguma clareza sobre as alianças no Congresso e coalizão forte o suficiente para aprovar", completa Clini, da Western.

Embora a melhora nesta semana responda basicamente ao cenário de eleições, o exterior continua como um dos principais pontos de preocupação dos investidores. Um gestor de uma grande casa que preferiu não ser identificado afirma que a sua estratégia é de longo prazo e que já estava otimista com Brasil mesmo antes do resultado do primeiro turno. "Na nossa avaliação, o movimento local é menos importante que o internacional. Tivemos uma parada na piora dos emergentes, mas ainda estamos um pouco preocupados se Turquia pode contaminar a Europa e a China crescer menos do que o esperado, o que prejudica os emergentes", ponderou.