Marcelo Traça Gonçalves: a delação decisiva para entender a caixinha da Fetranspor

Publicado em 14/11/2017 por O Globo

O empresário do setor de transportes, Marcelo Traça Gonçalves - Divulgação

RIO -Considerado pelos investigadores o responsável pela colaboração decisiva, por trazer detalhes de como os empresários do setor de transportes se organizaram para corromper deputados estaduais durante quase três décadas, o empresário Marcelo Traça Gonçalves, ex-presidente do Setrerj e ex-vice do conselho de administração da Federação das Empresas de Transportes do Estado (Fetranspor), tem sob o seu comando uma extensa frota de linhas de ônibus.

Primogênito da segunda geração de proprietários da Rio Ita Ltda, uma das maiores empresas de transportes urbano e interurbano do Estado do Rio, Marcelo Traça Gonçalves ampliou os negócios no segmento e hoje possui, em sociedades com outros empresários, ao menos 10 empresas com capital total estimado em R$ 140 milhões.

Sua influência no ramo dos transportes e participação em contratos com o governo fluminense o levou à presidência do Sindicato das Empresas de Transportes Rodoviários do Estado do Rio (Setrerj) e ao primeiro escalão do conselho de administração da Fetranspor, onde se juntou à cúpula do setor formado pelos empresários Lélis Teixeira, José Carlos Lavouras, Jacob Barata, e Rogério Onofre, ex-presidente do Departamento de Transportes Rodoviários do Estado do Rio (Detro), alvos da operação batizada de "Ponto Final".

As investigações da força-tarefa que levaram o empresário à prisão, em julho, tiveram como ponto de partida os acordos de colaboração premiada do doleiro Álvaro José Novis e de seu funcionário, Edimar Moreira Dantas, e apontaram o envolvimento direto de Traça e no megaesquema de corrupção comandado pelo ex-governador Sérgio Cabral e a cúpula dos transportes, acusados de desviar ao menos R$ 260 milhões do setor, dos quais grande parte, de acordo com os delatores, destinados ao pagamento de agentes políticos e de conselheiros de tribunais de contas para beneficiar interesses do grupo que controla as principais linhas de ônibus da cidade e de regiões metropolitanas.

Traça é apontado, de acordo com o depoimento de Edimar, como responsável pelos pagamentos de propina ao ex-presidente do Detro Rogério Onofre, nomeado para o cargo por Cabral no início de 2007, onde permaneceu até abril de 2014. Na delação do colaborador, Traça teria assumido papel importante no esquema a partir de outro de 2015, dando continuidade ao pagamento de propina a Onofre mesmo quando este já não presidia mais o Detro. Ele teria recebido ao menos R$ 900 mil até fevereiro de 2016.

Em 2015, Traça chegou a ser indicado para assumir a presidência do Conselho da Fetranspor no lugar de José Carlos Lavouras, mas a troca teria sido abortada após um pedido de um influente político da Assembleia Legislativa para manter Lavouras no cargo.

Mas não foi só na área de transportes que Traça se destacou como grande negociador. Durante muito tempo foi presença cativa nos grandes leilões de Gir Leiteiro e seu nome era aclamado nos leilões por que suas compras eram sempre milionárias, de acordo com a descrição do blog de notícias que cobre leilões da espécie de gado.

Dono da Agropecuária Alambari, grande investidor da raça gir leiteiro no auge da raça, Traça foi proprietário da vaca Dengosa Mutum, um dos exemplares mais valorizados no país. O envolvimento com os leilões o aproximou da família Picciani, de quem foi parceiro dos filhos do presidente da Assembleia em eventos glamourosos comandado por Felipe Picciani.

O clone de Dengosa bateu o recorde da própria Dengosa, que no dia 17 de novembro de 2010, 50% da sua propriedade foi arrematada por R$ 660 mil, tornando-se a vaca mais valorizada do gir leiteiro: R$ 1,32 milhão, hoje avaliada em R$ 1,84 milhão.


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