Na contramão do setor, companhia parou no tempo

Publicado em 14/09/2018 por Valor Online

Os problemas do conglomerado empresarial João Santos, que foi um dos mais importantes produtores de cimento do país até o início desta década, foram expostos após a morte do fundador, em 2009. Já havia informações de dificuldades financeiras enfrentadas pela Cimento Nassau, empresa âncora do grupo e um dos ícones da indústria cimenteira do país.

Em pleno período de vacas gordas das fabricantes de cimento no país, iniciado em 2004 e que durou até o fim de 2014, a empresa foi praticamente a única do setor que não fez investimentos em novas unidades fabris. Nem alocou recursos para modernizar seu parque fabril, concentrado nas regiões Nordeste e Norte. "Parou no tempo", diz um conhecedor da indústria.

Nesse período, o consumo de cimento no mercado brasileiro mais que dobrou: passou de 35 milhões para 72 milhões de toneladas. Com isso, o Brasil atraiu diversos investidores - locais e estrangeiros. A Nassau, inclusive, foi um dos alvos. A parte dos herdeiros que estavam descontentes com os rumos tomados pelo grupo a partir de 2010, pelos dois gestores nomeados pelo patriarca antes de morrer, defendeu a venda da empresa.

Bem posicionada nos mercados do Norte e Nordeste - onde o consumo de cimento mais cresceu no período -, a cimenteira era a vitrine do João Santos, responsável por mais de dois terços do faturamento do grupo. Com seu amplo parque fabril, dominava expressiva fatia do mercado nacional e durante muito tempo reinou como a vice-lider, atrás apenas do grupo Votorantim.

Mas, como não se modernizou nem cresceu, como as concorrentes, passou a enfrentar uma competição mais acirrada, inclusive de novos entrantes no setor - caso de Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e Brennand (que voltou), além de pequenas fabricantes. As grandes rivais, como Camargo Corrêa - que adquiriu os ativos da Cimpor e assumiu o segundo lugar -, Lafarge e Holcim ganharam mais fôlego fazendo investimentos em fábricas e em expansão das existentes.

Com a montanha de problemas financeiros, fiscais e trabalhistas que tem hoje, sua venda é considerada praticamente inviável, disseram fontes do setor. Cada fábrica tem um CNPJ (razão social), o que torna difícil separar os ativos bons dos "podres". O momento mais atrativo de venda, entre 2011 e 2013, não foi aproveitado, avaliam as fontes.

A avaliação é que o empresário, arredio aos holofotes, mas considerado destemido e trabalhador, pecou ao fazer a sucessão do comando do grupo, deixando-o em mãos de apenas dois filhos - Fernando e José. Pouco tempo depois de sua morte, as primeiras desavenças surgiram. Tocava o grupo com mãos de ferro e até quando pôde marcava presença todos os dias na sede do grupo, no centro de Recife.

Os herdeiros descontentes não aceitam a nova gestão definida pelo patriarca antes de morrer.

Fernando era conhecido nas altas rodas de Recife como um playboy que viveu na Europa esbanjando dinheiro da família, pouco participando dos negócios. Uma fonte relata que, mesmo hoje, é sua filha Ana Patrícia, que vive em São Paulo, quem dá as cartas na gestão da empresa.

Nascido em Serra Talhada, interior de Pernambuco, João Santos fundou a Nassau em 1951. Concentrou suas atividades nas regiões Nordeste e Norte. O nome foi uma homenagem ao holandês Maurício de Nassau, que representou a invasão holandesa no Brasil na terceira década do século XVII e viveu em Recife.

Órfão aos dois anos, João Santos começou a trabalhar cedo, aos oito, em uma fábrica em Paulo Afonso (BA), do industrial Delmiro Augusto da Cruz Gouveia. Em 1930, aos 23 anos, formou-se economista pela Faculdade de Comércio de Pernambuco. Antes de criar a Nassau, deu o primeiro passo como empresário, com um sócio, ao investir em usinas de açucar. No início dos anos 70, entrou no ramos de celulose e papel. Ergueu um império investindo também em outros negócios.