“Não é do interesse do Brasil destruir a Amazônia para explorar”, diz professor Paulo Artaxo

Publicado em 10/06/2019 por Brasil 247

Uma das maiores autoridades em meio ambiente, o professor da USP Paulo Artaxo criticou o interesse do atual governo de explorar recursos minerais da floresta e afirma que a indústria da mineração tem uma história "somente de destruição, não constrói nada. É uma indústria na qual basicamente quem lucra, com um gigantesco dano em vidas e ambientais, é uma parcela muito pequena da população, ou seja, não é do interesse do Brasil"
O professor e pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) e uma das maiores autoridades brasileiras em meio ambiente, mudanças climáticas e Amazônia, Paulo Artaxo, conversou com a TV 247 sobre a importância da floresta amazônica mundialmente e criticou a intenção do governo do presidente Jair Bolsonaro em explorar minerais da região. Ele também falou sobre a imagem do Brasil no mundo e sobre desenvolvimento sustentável.
Artaxo explicou que a humanidade vem transformando o planeta de maneira muito grande e que os recursos naturais a disposição dos seres humanos estão e esgotando. "Nós estamos mudando o nosso planeta de enormes maneiras diferentes, a agricultura, a indústria, a exploração pecuária, o cultivo de peixes, de qualquer maneira de olhar para o planeta o homem e o sistema socioeconômico, que o homem acabou moldando, está basicamente esgotando os recursos naturais do nosso planeta como um todo. Essa imagem e ideia de que todo o recurso natural está aí para ser explorado e dar dinheiro basicamente está acabando e destruindo, a questão da água está aí para mostrar isso e também a questão climática. Então a nossa sociedade, através dos grandes conglomerados de indústrias, emite uma quantidade brutal de gases de efeito estufa para a atmosfera a cada ano, como se atmosfera fosse uma lata de lixo".
Sobre a região amazônica, o professor afirmou que a floresta tem importância global e que, se elevado o nível de desmatamento da área, a situação do clima mundial irá se agravar muito. "A Amazônia é uma região absolutamente estratégica para o clima, não só no Brasil como no clima global. A Amazônia por sua extensão, pela importância do ponto de vista da emissão de vapor d'água para a atmosfera, pela emissão de Gases Traços e Aerossóis e pela quantidade de carbono que ela armazena no ecossistema, é absolutamente chave para a questão das mudanças climáticas. Se houver nas próximas décadas um aumento muito importante no desmatamento da Amazônia, com certeza a questão das mudanças climáticas globais vai se agravar, e se agravar muito".
Ele explicou por que a preservação da Amazônia irá beneficiar a todos, tanto o agronegócio quanto a população em geral. "A Amazônia não joga um papel auxiliar, ela joga um papel extremamente importante nas mudanças climáticas. Preservar a Amazônia, reduzindo o desmatamento, faz com que todos ganhem, o agronegócio brasileiro ganha porque preserva os serviços ambientais associados com a chuva nas regiões, por exemplo, onde se produz soja no Brasil. A população brasileira vai ter um clima muito mais estável e muito mais amistoso com a preservação da floresta amazônica. Então toda a população brasileira ganha e o clima global também ganha porque se esse carbono que está armazenado na Amazônia for para a atmosfera, mesmo que seja uma fração pequena dele, ele pode agravar significamente o efeito estufa, que é uma coisa que nós temos que evitar a todo preço".
O pesquisador criticou a intenção do atual governo de explorar mineralmente a Amazônia e disse que este tipo de indústria causa danos ao meio ambiente e em vidas humanas. "Sim, existem riquezas minerais na Amazônia, é uma região rica em recursos minerais, agora, a indústria da mineração, como as as barragens de Brumadinho e o acidente em Mariana têm mostrado, é uma das indústrias mais atrasadas do país, é uma das indústrias que traz mais dano não só ao meio ambiente, mas danos do ponto de vista de vidas humanas. É uma indústria que a gente não pode deixar tocar a Amazônia porque é uma indústria cuja história é somente de destruição, não constrói nada. É uma indústria na qual basicamente quem lucra, com um gigantesco dano em vidas e em danos ambientais, é uma parcela muito pequena da população, ou seja, não é do interesse do Brasil, como nação, destruir a Amazônia para explorar recursos minerais para dar dinheiro para companhias estrangeiras ou para conglomerados brasileiros. Não há a menor dúvida de que isso é um péssimo negócio para o Brasil".
Artaxo também rechaçou a teoria de que a defesa do ecossistema é ideológica e afirmou que a sociedade não tem ameaça maior do que as mudanças climáticas do planeta. "A defesa do meio ambiente não é ideologia, é uma estratégia de sobrevivência. Quando você vê, por exemplo, No Fórum Econômico Mundial, em Davos, onde se reúnem os 50 ou 100 maiores bilionários do planeta, dos cinco maiores riscos que eles apontaram na sua reunião em março de 2019, três deles estão associados com as questões das mudanças climáticas globais. A humanidade não tem outra ameaça que seja maior do que o que já está acontecendo associado com as mudanças climáticas globais, não é uma questão de ideologia, e quem escolhe os maiores riscos no Fórum Econômico Mundial não são nem cientistas e nem o pessoal de organizações não governamentais, são economistas que preveem que muito dos negócios que estão florescendo hoje podem não florescer adequadamente ao longo das próximas décadas por causa dos fracassos das negociações climáticas globais".
Sobre a imagem do Brasil no exterior, o professor avaliou que há grande preocupação internacional em relação aos brasileiros em vários aspectos. "O Brasil, não só na questão ambiental, na questão dos direitos humanos, na questão econômica, é motivo de enorme preocupação para praticamente todos os países, com pouquíssimas exceções. Em particular, os países europeus estão extremamente preocupados, por exemplo, com o uso de recursos do Fundo Amazônia, que eram utilizados para a preservação da floresta e que agora, o atual ministro do meio ambiente quer transformar esses recursos, na verdade, para continuar o processo de destruição da Amazônia, que não é o objetivo do Fundo Amazônia".
Ele ainda explicou o que é desenvolvimento sustentável. "Desenvolvimento sustentável é definido com sendo o desenvolvimento que não compromete o futuro das próximas gerações, ou seja, se você tem um tipo de desenvolvimento que só busca o lucro maior possível, no menor espaço de tempo e sem se preocupar com o futuro da humanidade, do país e da infraestrutura do nosso país, esse desenvolvimento não é sustentável, ele só visa o lucro em um prazo muito curto, como é a questão da destruição da Amazônia. Então desenvovimento sustentável é um desenvolvimento que, através do crescimento econômico, não compromete as próximas gerações. Isso é possível e muitos países estão implementando estratégias de desenvolvimento sustentável".