Norte perde a floresta, mas quem paga conta é Sul, diz O Globo

Publicado em 04/07/2019 por BNC

O jornal O Globo reedita nesta terça-feira, dia 2, uma tese há muito discutida pelos ambientalistas, a de que o regime das chuvas do Sudeste e Sul do país é controlado pela Floresta Amazônica.
“A floresta desaparece na Região Norte, mas é no Sul do país que a chuva gerada por ela fará falta, para beber e plantar”, diz reportagem do impresso, que é a manchete do dia com o seguinte título:
“Desmatamento cresce 60% na Amazônia” e, como subtítulo, traz a seguinte informação:
“Inpe mostra perda de 762,3km2 de mata em junho. Acumulado de 2019 é o pior registro desde 2016”.
Na reportagem, o matutino publica também uma análise feita por Ana Lúcia Azevedo, do próprio jornal, que escreve no início de seu texto:
“E quando a floresta queima, ardem os pulmões de quem vive no Sudeste. Não se trata de opinião, mas de fatos”.
Leia o texto de Ana Lúcia Azevedo, na íntegra.
O aumento do desmatamento na Amazônia é uma má notícia para todos os brasileiros, estejam ou não preocupados com o meio ambiente. As árvores tombam no meio da Floresta Amazônica, mas o impacto mexe com o bolso dos habitantes das cidades. A floresta desaparece na Região Norte, mas é no Sul do país que a chuva gerada por ela fará falta, para beber e plantar. E quando a floresta queima, ardem os pulmões de quem vive no Sudeste. Não se trata de opinião, mas de fatos.
Mais distante do cotidiano dos brasileiros urbanos do que a Lua, no século XXI a Amazônia se tornou bem mais do que símbolo ambiental. Ela está nos acordos comerciais, como o recém-assinado entre o Mercosul e a União Europeia, que tem cláusulas restritivas a produtos provenientes de áreas de desmatamento.
A preocupação do consumidor europeu com o combate ao desmatamento e a consequente preservação da Amazônia —pouco importando se seus países destruíram suas próprias matas no passado —faz diferença no momento em que nossas exportações precisam do dinheiro dele para crescer.
Temos os dados do Inpe para monitorar a floresta. Mas não se iludam os desmatadores que avançam sobretudo sobre as terras públicas, patrimônio construído com o dinheiro do contribuinte, que Deter e Prodes são as únicas ferramentas. Satélites miram onde o dinheiro paga. E no mês passado, por exemplo, foi lançado o Global Forest Watch Pro (GFW Pro), um sistema on-line e em tempo real para avaliar o desmatamento das principais commodities: carne, soja, café, borracha, madeira, óleo de palma, cana-de-açúcar.
Mais de 80 empresas internacionais já aderiram, entre elas a trader de grãos Cargill, além de gigantes como Unilever e Procter & Gamble. Querem saber, por exemplo, se a soja usada para fazer sabonete ou papinha de bebê veio de área desmatada.
Por seu tamanho, a Amazônia brasileira é a maior preocupação. Mas também olham para Colômbia e Peru, onde acelera a destruição da mata. Na Colômbia, foi alavancada após o acordo do governo com as Farc, que liberou terras antes sob domínio da guerrilha, diz o climatologista Carlos Nobre, especialista em Amazônia.
De volta ao Brasil, estudos já mostraram a relação direta entre a seca no Sul da Amazônia e a diminuição das chuvas que permitem a existência das florestas do oeste do Paraná, como as das cataratas do Parque Nacional do Iguaçu e as que protegem a Usina de Itaipu. Essas chuvas são trazidas pelos rios voadores, jatos de ar carregados de umidade que se originam sobre a floresta e atravessam o Brasil, a cerca de 3.000 metros de altitude.
A Amazônia está entre nós. Não é escolha. São as regras do planeta. Quando ela encolhe, também perdemos.
Foto: Ascom/Ibama