Paquistão é um Estado militar, diz jornalista perseguido pelo governo

Publicado em 13/10/2017 por Folha de S. Paulo Online

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O jornalismo entrou por acaso na vida do paquistanês Taha Siddiqui, 33. Formado em administração de empresas em Karachi, o "jornalista acidental", como se descreve, começou como analista de finanças, passou a produtor de TV e então, seguindo conselho de amigos, aventurou-se na reportagem.

Em alguns anos, especializou-se na cobertura de temas militares e de segurança em zonas de guerra. E então os problemas começaram.

Arquivo Pessoal
Taha Siddiqui passou a controlar saídas e trabalho após agentes de inteligência e militares o seguirem
Taha Siddiqui passou a controlar saídas e trabalho após agentes de inteligência e militares o seguirem

"Sempre fui crítico das pegadas deixadas pelo Exército do Paquistão para além de seu papel de defesa. O Paquistão é um Estado militar, e muitas das minhas histórias eram sobre o envolvimento militar na política, nos negócios, nos assuntos sociais", conta Siddiqui.

Em 2014, ele levou o prestigioso prêmio francês Albert Londres pelo documentário "A Guerra da Pólio", sobre a campanha contra a vacinação empreendida pelo Taleban. Chefe de Redação do indiano WION e correspondente do americano "Christian Science Monitor", do alemão "Die Welt" e do francês France24, Siddiqui também colabora para o "New York Times".

"Posso parecer paranoico, mas [depois da projeção dada pelo prêmio] senti que estavam vigiando a mim e a quem me visitava. Uma amiga foi avisada de que não deveria nos ver [a mulher dele também é jornalista] pois éramos más companhias", lembra.

"Alertas" chegavam de todos os lados. "Comecei a receber ligações de amigos jornalistas, de amigos que trabalhavam para o governo e às vezes diretamente de pessoas do Exército pedindo que parasse de criticar os militares. Eram amigáveis e às vezes brincavam sobre como eu poderia desaparecer."

O tom ligeiro desapareceu em maio passado, quando a Agência Federal da Investigação [FIA, na sigla em inglês], sob comando dos militares, foi atrás dele com acusações formais de terrorismo e crimes cibernéticos.

INTERROGATÓRIO

Na ocasião, uma pessoa que se identificou ao telefone como Noman Bodla, vice-diretor do Departamento de Contraterrorismo da FIA, convocou-o para um interrogatório na sede da agência.

Siddiqui não compareceu. Sabia que colegas que o haviam feito tinham desaparecido ou sido detidos ilegalmente. Após o telefonema, notou a presença de pessoas à paisana diante de sua casa. Passou a restringir seus movimentos e a informar seu paradeiro a amigos e familiares.

O jornalista deu entrada então na Alta Corte de Islamabad a um processo por assédio contra FIA, Ministério do Interior e Noman Bodla.

"Quis iniciar um debate sobre a liberdade de expressão. Todos os meus colegas jornalistas exercem autocensura. Fui à Justiça para que o governo respondesse em público o que podemos ou não dizer, e por quê", diz ele. "Também sinto que, ao tornar minha luta pública, ganho um pouco de proteção."

Segundo o Comitê para a Proteção de Jornalistas (CPJ), o Paquistão é o oitavo país mais perigoso do mundo para o exercício da profissão. Lá, 89 profissionais morreram desde 1992.

A corte proferiu sentença favorável a Siddiqui, determinando que a FIA pusesse fim à intimidação. Dois dias depois, o jornalista foi intimado a um novo interrogatório. O processo continua, mas com adiamentos constantes.

O Ministério do Interior sustenta que não faz nada de ilegal. Segundo o ministro Ali Khan, a Constituição impede que alguém "humilhe" as Forças Armadas, o Judiciário ou a religião nacional, o islã. "Esse vale-tudo da mídia é inaceitável para uma democracia", afirmou a meios locais.

JORNALISMO LIVRE

"No Paquistão, é quase impossível ser um jornalista independente. As organizações de mídia locais têm interesses econômicos, afiliações religiosas e ligações com os militares", diz Siddiqui. "O conflito entre militares e militantes resulta em uma ameaça dupla que afeta jornalistas."

Em maio, a FIA publicou uma lista com mais de 200 usuários de mídia social que teriam postado "conteúdo antimilitar". O Ministério da Informação, da Radiodifusão e do Patrimônio Nacional alertou para a aplicação de leis de crime cibernético contra quem postasse conteúdo considerado "propaganda negativa sobre as instituições constitucionais".