Petista tem que ampliar agenda, diz Casagrande

Publicado em 11/10/2018 por Valor Online

Petista tem que ampliar agenda, diz Casagrande

Gilson Borba/Futura Press/Folhapress - 7/10/2018

Casagrande: governador eleito pelo PSB vai ficar neutro no 2º turno "porque a realidade capixaba exige isso"

Se quiser ser eleito, Fernando Haddad (PT) precisa assumir o controle e a liderança da própria candidatura e entender que representa um projeto, no momento, que vai muito além da agenda petista, opina Renato Casagrande, secretário-geral do PSB, eleito governador do Espírito Santo no primeiro turno, com 55,49% dos votos válidos. Para agregar forças políticas, o governador avalia que Haddad precisa reconhecer a importância de se fazer uma reforma da Previdência.

Casagrande, que apoiou Ciro Gomes (PDT) no primeiro turno, não fará campanha para Haddad agora, a despeito de o PSB ter declarado apoio oficial ao petista.

Segundo o governador eleito, a "realidade capixaba" exige dele ponderação e neutralidade. Casagrande estima que pelo menos 40% dos votos que recebeu vieram de eleitores de Bolsonaro. Pontua que tem conceitos sobre segurança pública divergentes dos expressados por Bolsonaro e fica "feliz" ao ver Haddad tratar o tema com prioridade no segundo turno.

A seguir, os principais trechos da entrevista:

Valor: Como o senhor analisa esse resultado eleitoral no Espírito Santo e a derrota política do governador Paulo Hartung (MDB)? Há relação com a proximidade dele com o presidente Michel Temer?

Renato Casagrande: Não. Foram questões locais mesmo. Eu fiz um governo muito bem avaliado e perdi a eleição em 2014, porque as pessoas acharam que mesmo eu sendo bom, o Hartung era muito melhor. Hartung errou. Paralisou tudo no Estado. Obras, programas sociais. Ficou muito focado em tentar destruir minha liderança e perdeu o timing do governo dele. O governador não arrumou outro candidato. Vendo a situação, tomou a decisão de não disputar e não convenceu ninguém do grupo dele. Houve então uma pulverização de candidaturas. Boa parte dos votos dele vieram para mim. Mantive vantagem na campanha toda, mesmo com seis candidaturas e esse ambiente de polarização da política entre PT e PSL.

Valor: Bolsonaro teve votação recorde na região Sudeste inteira, incluindo o Espírito Santo, onde teve 54%. Como o senhor vê este fenômeno?

Casagrande: Bolsonaro representa o anti-PT. As pessoas avaliam pouco a consistência do candidato e as propostas. Ele encarnou esse antipetismo e isso lhe dá uma força subjetiva. Não tem nenhuma proposta que possa mobilizar a sociedade, um programa. O que mobiliza a sociedade é esse sentimento de negação ao Partido dos Trabalhadores (PT), é isso que dá a força a ele em diversas regiões.

Valor: O PSB decidiu na terça-feira apoiar Fernando Haddad, liberando os candidatos em SP, DF e SE. Como explicar esta decisão após o PSB ter apoiado o impeachment de Dilma Rousseff, ter apoiado inicialmente o governo Temer?

Casagrande: Vejo com muita naturalidade a decisão. O PSB, como partido, não tinha outro caminho a seguir. A decisão é coerente com a história do PSB, por defender um campo democrático-popular. Como governador eleito, me manterei equilibrado e neutro. Tive votos de eleitores do Bolsonaro e de Haddad. Vou ficar neutro, em respeito a meus eleitores. É coerente, mesmo com todas as críticas que gente faz ao PT, que o PSB esteja alinhado ao Haddad. E o PSB cobrou do Haddad a necessidade de ele ser um candidato para além do PT, uma candidatura de um campo democrático e popular. Não uma candidatura partidária. E que ele assuma de fato, e de vez, a liderança da sua candidatura neste novo tempo.

Valor: Isso significa que o senhor não fará campanha para Haddad?

Casagrande: Não, não farei. Nem para um, nem para o outro.

Valor: A militância do PSB fará?

Casagrande: Meu partido fará. Os militantes estão liberados. Na verdade, há a decisão de fazer. O partido fará campanha para Haddad. Eu não farei.

Valor: O senhor fez cruzamentos para analisar qual a parte de seu eleitorado optou por Bolsonaro?

Casagrande: Acho que pelo menos metade dos meus votos, ou cerca de 40%, foram de eleitores que também optaram pelo Bolsonaro. Uma parte veio do Ciro, naturalmente, e do Haddad também, apesar de o PT ter tido candidato aqui.

Valor: O senhor no primeiro turno declarou apoio a Ciro. Possivelmente ele e o PDT se unirão a Haddad. Ainda assim o senhor ficará neutro?

Casagrande: O PDT vai se unir à candidatura do Haddad, o PSB vai se unir à candidatura do Haddad. Eu ficarei em posição de equilíbrio, porque a realidade capixaba exige isso.

Valor: Qual realidade?

Casagrande: Tenho a cobrança dos eleitores que votaram no Bolsonaro, tá certo? Querem que eu me posicione de forma equilibrada. Tenho que respeitar.

"Haddad terá que fazer um debate que amplie a agenda do PT para que possa agregar as forças democráticas"

Valor: O Espírito Santo teve e tem problemas seríssimos de segurança pública. Bolsonaro elegeu a segurança como sua bandeira, com propostas sobre porte de arma,redução de maioridade penal, e aumento do encarceramento. O senhor concorda com estas propostas do candidato?

Casagrande: Tenho uma visão diferente. Quando me elegi governador, implantei um programa de segurança pública que se chama Estado Presente, que virou referência no Brasil todo. Trabalhamos muito pelo fortalecimento das corporações militares, puxei para o meu gabinete o comando da segurança pública, com o conceito de que se trata de uma política transversal. Deve sim ser tarefa da polícia, mas uma tarefa também das áreas sociais. Criamos programas específicos nas áreas de saúde, educação, esporte, cultura, investimento em infraestrutura urbana. A combinação de tudo isso é segurança pública. Vejo uma complexidade maior e a exigência de integração de ações política, e também um nível de respeito e uma visão de civilização que haver no sistema prisional brasileiro. Nós avançamos muito no enfrentamento ao crime no Estado com esta visão mais ampla. E vou implementar de novo a partir e 1º de janeiro.

Valor: Haddad deu uma guinada no discurso e abraçou a causa da segurança pública, até por pressão dos governadores do Nordeste e do PSB. O candidato do PT disse que vai trabalhar o conceito de fortalecimento da PF para atuação nos Estados, no combate ao crime. O que o senhor acha desta proposta?

Casagrande: É uma boa medida, uma boa iniciativa: medidas como estas, de integração de forças policiais e implantação de fato um sistema único de segurança pública. Estamos certos de que uma bomba a explodir é o sistema prisional capixaba. Muitos presos, com pouco investimento. Temos que ter um parceria com o governo federal, senão os Estados não suportam essa cultura do encarceramento. É preciso que o governo federal ajude na ação mais efetiva e competente do Poder Judiciário, para que a gente consiga julgar com mais rapidez, para reduzir o número de presos provisórios. É preciso reduzir esta cultura do encarceramento no Brasil, e estabelecer medidas cautelares diferentes do encarceramento quando o crime não for de alta potencialidade. Precisamos muito da ajuda do governo federal e fico muito feliz que o Haddad esteja entrando neste campo.

Valor: Mas a pauta do candidato do PSL não é a pauta do encarceramento, que o senhor critica?

Casagrande: Essa é a pauta atual do Brasil. Só que isso não funcionou até agora. A população carcerária é crescente. Precisamos de encarceramento para reduzir a impunidade, óbvio, mas temos muitas pessoas presas que não precisavam estar. Precisamos de um trabalho de parceria com o Poder Judiciário, os governos estaduais e o governo federal tem que fazer parte disso, para melhorarmos o funcionamento e efetividade do sistema carcerário no Brasil. Evitar que a gente leve à privação de liberdade pessoas que possam fazer trabalhos à sociedade. Temos aí um trabalho gigante a fazer, e só os Estados não conseguem fazer. Então esta visão de enfrentamento ao crime não pode ser simplista. Ela é muito mais complexa do que simplesmente armar as pessoas. E é muito mais complexo do que simplesmente prender as pessoas.

Valor: Bolsonaro teve uma liderança muito expressiva nesta eleição, chegando a 46% dos votos, contra 29% de Haddad. O senhor vê condições de uma virada? O Sudeste será fundamental, admite o PT.

Casagrande: O Bolsonaro parte com vantagem e isso é inegável. Mas segundo turno é outra eleição. Vai depender muito do comportamento e da postura do Haddad. Ele terá que fazer um debate que amplie a agenda do PT para que ele possa agregar as forças democráticas do Brasil. É possível sim a disputa, reconhecendo que o Bolsonaro é muito forte no segundo turno e que vai depender muito da forma como Haddad se apresenta para a sociedade, como líder de um projeto e de um movimento. E sendo o principal líder, não o segundo líder.

Valor: O senhor disse que o PSB quer que Haddad assuma a candidatura. É uma referência à dependência política do candidato em relação ao ex-presidente Lula?

Casagrande: Do Lula e principalmente do PT. Essa é a visão do PSB. Eu não vou fazer campanha nem para um nem para o outro, mas fazendo uma análise da situação, esta é a minha visão.

Valor: O PT não pode tentar ser hegemônico, é isso?

Casagrande: Não é só hegemônico, não tem mais a ver com a hegemonia do PT. Tem que ter uma agenda. A agenda tem que ser ampla, tem que sensibilizar forças democráticas brasileiras que vão muito além do Partido dos Trabalhadores.

Valor: O que deve ser incluído nesta agenda?

Casagrande: O sistema de segurança é uma agenda. Tem que debater. Tem que entrar firme neste debate. A política econômica é outra agenda. As reformas que o país precisa fazer, outra. Nós não podemos deixar de discutir as reformas. Elas devem e precisam proteger os mais pobres, mas não podemos deixar de colocar no debate a necessidade de fazer reforma da Previdência. Simplesmente anular a reforma trabalhista pode não ser o caminho adequado. Talvez possa haver mudanças que atualizem a legislação trabalhista. Há uma agenda que precisa ser ampliada para agregar forças políticas em torno deste movimento.

Valor: O PSB espera alguma sinalização de Haddad sobre reforma da Previdência?

Casagrande: Não discutimos. O PSB mandou um documento a ele. Na minha visão, a ampliação do debate precisa incluir temas para atrair outras forças.

Valor: O PSB fez uma revisão história de seus movimentos? Desde a morte de Eduardo Campos, o partido tem sido instável. Apoiou o impeachment, Temer...

Casagrande: O partido está vivendo o tensionamento da política nacional. Desde a morte de Eduardo, na eleição de 2014, começou a haver este tensionamento forte, primeiro com PT e PSDB. O partido não fica imune a isso. Estamos sofrendo com isso, e não só nós. Veja o PSDB, o MDB, o próprio PT. O tensionamento é geográfico, com Sul e Sudeste numa posição, e o Nordeste na outra. Isso repercute dentro do partido e com as lideranças. Não é fácil manter a unidade. O PSB tem procurado, a cada ato importante, tomar uma decisão. E a decisão que tomamos é a decisão possível. Nem sempre é a melhor. Isso tem mantido o partido de pé e com coerência. A maioria queria o impeachment da presidente Dilma e respeitamos os que não quiseram votar. A cada momento o partido toma uma decisão buscando manter coerência com sua história, apontando o combate a corrupção e o fortalecimento das forças democráticas e populares.

Valor: E o apoio a Temer?

Casagrande: Não apoiamos. Apenas demos liberdade para que Temer pudesse convidar alguém do PSB [para ministérios]. Sempre mantivemos independência e depois caminhamos para oposição. Nunca abraçamos o governo Temer. Quem abraçou foi o ministro de Minas e Energia da época [Fernando Coelho Filho, que se desfiliou do PSB].