Picciani comanda balcão de negócios na Alerj, dizem delatores

Publicado em 14/11/2017 por O Globo

RIO - O presidente da Assembleia Legislativa do Rio, Jorge Picciani (PMDB), alvo da operação "Cadeia Velha" e levado para depor coercitivamente pela Polícia Federal nesta terça-feira, é acusado pelos delatores de receber a propina paga sistematicamente à Casa pelos empresários ligados à Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado do Rio de Janeiro (Fetranspor), de operar como intermediário na distribuição do dinheiro a outros parlamentares e de atuar como agente de lavagem de dinheiro.

Em delação decisiva para os investigadores, o empresário Marcelo Traça Gonçalves, ex-presidente do Setrerj e ex-vice do conselho de administração da Fetranspor, detalhou como os empresários do setor se organizaram para corromper deputados estaduais durante quase três décadas.

O doleiro Álvaro José Novis, dono da corretora Hoya, contou que intermediou, na condição de agente financeiro, a propina da Fetranspor entregue regularmente a Picciani. Já o ex-presidente do Tribunal de Contas do Estado (TCE) Jonas Lopes de Carvalho, em depoimento dado no âmbito da Operação "Quinto do Ouro", apresentou Picciani como intermediário da negociação de propina entre a federação e os conselheiros do TCE-RJ.

Os depoimentos dos três foram comparados com outras provas, provenientes de quebra de sigilos e de cooperação internacional. A delação de Traça envolve ainda três prefeitos fluminenses no esquema. Um deles é Carlos Busatto Júnior, o Charlinho, de Itaguai. Outro é Nelson Bornier, ex-prefeito de Nova Iguaçu, cuja residência será alvo de busca e apreensão.

As delações apontam o economista Jorge Luiz Ribeiro como o operador de Picciani. Também citam Sávio Mafra, espécie de faz-tudo de Picciani na Alerj, como a pessoa que agendava os encontros destinados a negociar a caixinha.

As provas contra Picciani são reforçadas pela delação de Benedicto Júnior, ex-presidente da Odebrecht Infraestrutura. De acordo com ele, em 2010 a empreiteira transferiu R$ 5 milhões, em três parcelas, para contas do presidente da Alerj no exterior. O dinheiro, segundo Benedicto Júnior, foi pedido por Picciani para reforçar o caixa de sua campanha ao Senado, em disputa que acabaria vencida por Lindbergh Faria, do PT.

Também foram considerados os relatos de outros executivos de empreiteiras, caso da Carioca Engenharia, revelado pelo GLOBO no ano passado. Um deles é do empresário Ricardo Pernambuco Júnior, diretor e acionista da Carioca, cuja delação premiada mostra que ele comprou 160 cabeças de gado da Agrobilara, empresa da família de Picciani, por R$ 3,5 milhões, entre 2012 e 2013. O valor acertado, conta o delator, estava acima dos preços de mercado, razão pela qual Picciani, de acordo com ele, devolveu R$ 1 milhão por fora e ficou com o restante.

O depoimento de Pernambuco foi o segundo que envolveu a Carioca Engenharia com a compra de gado de Picciani. Antes, também em colaboração premiada, a ex-diretora financeira da empreiteira Tânia Maria Fontenelle havia afirmado que os negócios com a Agrobilara eram parte de um esquema para "gerar dinheiro em espécie" para o caixa dois da empreiteira. De acordo com Tânia, a destinação das quantias "era ilícita, para a corrupção ou para doação eleitoral não declarada".

MELO HERDOU ESQUEMA

No período que ocupou a Presidência da Alerj, Paulo Melo beneficiou-se do mesmo esquema, de acordo com a delação. Os delatores revelaram que, na época (2011-2015), a propina era entregue a Andreia Cardoso do Nascimento, chefe de gabinete do deputado. A rede da propina mobilizou também o assessor parlamentar Fábio Cardoso do Nascimento, irmão de Andreia e ex-chefe de gabinete de Paulo Melo em 2011 (em 2015, Fabio estava lotado no gabinete do deputado Dr. Sadinoel, como assessor parlamentar IV.

Na declaração de renda de 1994, ano em que o Picciani voltou à Alerj depois de passar pela Secretaria Estadual de Esportes e Lazer e presidir a Suderj, o deputado somava em bens pessoais o equivalente a 413.318,37 UFIRs da época, algo em torno de R$ 160,5 mil atualizados nos dias de hoje. Em 20 anos, já na declaração de 2014, apresentada ao TSE, Picciani registrou um balanço patrimonial de R$ 10,381 milhões, um aumento vertiginoso de 6.387,5%.

Já Paulo Melo, de acordo com sua declaração de 1997, então no seu segundo mandato na Alerj, tinha cerca de R$ 773 mil em bens e direitos. Em 2014 declarou possuir um patrimônio avaliado em R$ 5.020.321,24, um aumento de 549, 54%.

Como funcionava a "caixinha da Fetranspor"
Esquema de propinas pagas por empresários de empresas de ônibus do Estado do Rio de Janeiro corrompeu deputados estaduais durante quase três décadas.
1
O esquema de propinas, como demonstraram as investigações, começou no início dos anos 1990, com a Alerj sob o comando de Cabral, sendo herdada por seus dois sucessores, Picciani, Melo e Albertassi
Lideranças da Alerj
SÉRGIO CABRAL
JORGE Picciani
PAULO Melo
Edson Albertassi
Ex-presidente da Alerj
(1995-2003)
Presidente da Alerj
(2003-2010 e 2015 até hoje)
Ex-presidente da Alerj
(2011-2015)
Líder do Governo
na Alerj
ALERJ
2
3
Sob a influência dos presidentes, deputados estaduais votavam de forma a garantir benefícios relacionados a linhas de ônibus, aumento de tarifas, isenções fiscais e outros interesses da classe que passavam pela Alerj
Em troca das Leis favoráveis, um grupo de empresários de ônibus mantinha a "caixinha da Fetranspor", uma rede de pagamentos aos políticos que participavam do esquema (uma rede entre empresários, parlamentares e assessores, incluindo até nomeações de juízes)
Leis favoráveis
aos empresários
ligados à Fetranspor
Propina para políticos
Fetranspor
Grupo de empresários ligados à Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado do Rio de Janeiro
OPERADOR
Marcelo Gonçalves
Jonas Lopes
Álvaro José Novis
Ex-vice presidente do conselho de administração da Fetranspor
Ex-presidente do Tribunal de Contas do Estado (TCE)
Doleiro e operador do esquema de propinas
Delator
Delator
Delator
Em delação, Marcelo Traça Gonçalves detalhou como os empresários do setor de transportes se organizaram para corromper deputados estaduais
Lopes fortaleceu o envolvimento de Picciani ao apresentá-lo como intermediário da negociação de propina entre a federação e os conselheiros do TCE-RJ
O doleiro, dono da corretora Hoya, contou como intermediou, na condição de agente financeiro, a propina da Fetranspor entregue regularmente a Picciani
Como funcionava a
"caixinha da Fetranspor"
Esquema de propinas pagas por empresários de empresas de ônibus do Estado do Rio de Janeiro corrompeu deputados estaduais durante quase três décadas.
1
O esquema de propinas, como demonstraram as investigações, começou no início dos anos 1990, com a Alerj sob o comando de Cabral, sendo herdada por seus dois sucessores, Picciani , Melo e Albertassi
Lideranças da Alerj
JORGE Picciani
SÉRGIO CABRAL
Ex-presidente da Alerj
(2003-2010 e
2015 em diante)
Ex-presidente da Alerj
(1995-2003)
PAULO Melo
Edson
Albertassi
Ex-presidente da Alerj
(2011-2015)
Líder do Governo
na Alerj
ALERJ
2
Sob a influência dos presidentes, deputados estaduais votavam de forma a garantir benefícios relacionados a linhas de ônibus, aumento de tarifas, isenções fiscais e outros interesses da classe que passavam pela Alerj
Leis favoráveis
aos empresários
ligados à Fetranspor
Fetranspor
3
Em troca das Leis favoráveis, um grupo de empresários de ônibus mantinha a "caixinha da Fetranspor", uma rede de pagamentos aos políticos que participavam do esquema (uma rede entre empresários, parlamentares e assessores, incluindo até nomeações de juízes)
Grupo de empresários ligados à Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado do Rio de Janeiro
Propina para políticos
DelatorES
Marcelo Gonçalves
Ex-vice presidente do conselho de administração da Fetranspor
Em delação, Marcelo Traça Gonçalves detalhou como os empresários do setor de transportes se organizaram para corromper deputados estaduais
Jonas Lopes
Ex-presidente do Tribunal de Contas do Estado (TCE)
Lopes fortaleceu o envolvimento de Picciani ao apresentá-lo como intermediário da negociação de propina entre a federação e os conselheiros do TCE-RJ
Álvaro José Novis
Doleiro e operador do esquema de propinas
O doleiro, dono da corretora Hoya, contou como intermediou, na condição de agente financeiro, a propina da Fetranspor entregue regularmente a Picciani


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