A praça cercada

Publicado em 13/01/2018 por O Estado do Maranhão

A praça cercada

Chão histórico, no dizer do pesquisador Carlos de Lima (Caminhos de São Luís, Livraria Vozes, 2007), o velho Campo de Ourique ou d'Ourique, hoje dividido e com outros nomes, em São Luís do Maranhão, passa por mais uma reforma. O nome original foi dado em homenagem a uma cidade homônima portuguesa, onde aconteceu feroz batalha entre cristãos e muçulmanos, lá pelos idos de 1139. Em terras ludovicenses foi, igualmente, palco de acontecimentos marcantes, cabendo citar a Setembrada (levante exacerbado pelo sentimento anti-lusitano, após a Abdicação de D. Pedro I), os festejos pela coroação de D. Pedro II e a despedida de milhares de soldados quando de sua partida para a Guerra do Paraguai. Em dias mais recentes, década de 1960, ponto de concentração grevista dos alunos da Faculdade de Ciências Médicas, quando dávamos consultas e distribuíamos amostras de remédios.

Recuemos, porém, na História. Por volta de 1755, quando o governo do Maranhão decidiu criar o primeiro sistema de abastecimento d'água de São Luís, foi a área escolhida para instalação do maquinário que iria bombear do Rio Anil e distribuí-la a chafarizes instalados pela cidade. Era a Companhia de Águas do Rio Anil, que teve projeto e construção liderados pelo engenheiro caxiense Raimundo Teixeira Mendes, formado em Paris. Houve, porém, forte oposição de Dona Ana Jansen, a Rainha do Maranhão, no dizer de Jerônimo de Viveiros, cujos escravos, utilizando carroças e muares para o transporte das ancoretas, vendiam água de porta em porta pela cidade, e ela faturava. Consta que para atingir seus objetivos a poderosa senhora usou métodos terroristas, isto é, o lançamento de animais mortos na caixa d'água e o entupimento da tubulação. A empresa foi à falência.

Posteriormente o Campo de Ourique foi dividido em duas partes, construiu-se numa delas um quartel do Exército, ocupado, respectivamente, pelo 5º Batalhão de Infantaria, pelo 48º, pelo 20º e, finalmente, pelo 24º Batalhão de Caçadores. A área defronte passou a se chamar Praça do Quartel e a situada por trás, por sua vez, ficou conhecida como Largo da Pirâmide, pois lá se erguia a Pirâmide da Memória, antes da sua transferência para a Avenida Beira-Mar.

Uma terceira fase da vida daquela área, recente e, sem dúvida, lembrada por muitos que nos leem, é que por ali existiam boas e famosas escolas. Uma delas é o Liceu Maranhense, que lá permanece, com sua aura de grandeza. Citado por Josué Montello e outros vultos da literatura e da história maranhenses, por lá passaram grandes mestres da nossa cultura, como Antônio Lopes, Rubem Almeida e outros. O Ateneu Teixeira Mendes, do professor Solano Rodrigues (talvez o maior matemático maranhense do seu tempo) e o tradicional Ginásio Rosa Castro. Um pouco afastados estavam Colégio Maranhense (Irmãos Maristas) e o Colégio de São Luís, do professor Luís Rego.

Era uma área bonita da cidade, frequentada por professores e pela estudantada. Cortada por linhas de bondes, o ambiente irradiava uma energia sadia, respirava-se cultura e história, principalmente depois da construção da Biblioteca Benedito Leite. Posteriormente, porém, foi ocupada por moradores sem teto, uma multidão de comerciantes informais e usada para o estacionamento de veículos. Mudou para pior. O Campo de Ourique (Praças Deodoro e do Panteon) perdeu o ar de grandeza, tornou-se triste e confuso.

Para o bem de todos, era necessário fazer alguma coisa.

ALDIR PENHA COSTA FERREIRA

Médico, membro da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (SOBRAMES) e da Academia Vianense de Letras

Leia mais notícias em OEstadoMA.com e siga nossas páginas no Facebook, no Twitter e no Instagram. Envie informações à Redação do Jornal de O Estado por WhatsApp pelo telefone (98) 99209 2564.