Qual é o Brumadinho do agronegócio?

Publicado em 02/04/2019 por Época Negócios

As organizações começam a perceber como riscos socioambientais estão afetando seus resultados financeiros
Recentemente, tive a oportunidade de engajar a ABAG ( Associação Brasileira do Agronegócio) numa reunião sobre sustentabilidade. Na preparação, me perguntei: qual é o melhor jeito de começar a conversa sem ser qualificado como ativista ou ‘biodesagradável’? Solução: decidi falar negócios!
No caminho para uma gestão mais profissional de sustentabilidade, as organizações, em geral, começam percebendo como riscos socioambientais estão afetando os resultados financeiros. Do impacto da “carne fraca” todo mundo se lembra. E pensei: quais são os possíveis Brumadinhos do agronegócio? Quais seriam as manchetes que poderiam sair na imprensa no futuro?
Manchete 1: China proíbe importação de grãos do Brasil por causa do desmatamento
Fato real nos bastidores: Em 2016,  o China Council for International Cooperation on Environment and Development produziu um relatório intitulado: “O papel da China de tornar cadeias globais de fornecimentos mais sustentáveis”. O relatório analisou commodities tais como soja, óleo de palma, algodão, produtos das florestas entre outros, frente a impactos socioambientais e concluiu: “É do interesse da China de ocupar um lugar de liderança em tornar cadeias globais mais sustentáveis”. Sabemos que o governo chinês é relativamente rápido em implementar novas políticas. Algumas empresas proativas já estão tomando medidas. A Cargill e o Grupo AMAGGI já estão adotando políticas de zero-desmatamento. Mas, a maioria do agronegócio do Brasil ainda pode ser pego por surpresa.
Manchete 2: CEO da XYZ é preso por contaminação de colaboradores e de solos
Fato real nos bastidores: O agronegócio brasileiro usa mais agrotóxicos que outros países produtores. Uma parte disso é por causa do clima tropical que tem a vantagem de providenciar mais safras, mas ao mesmo tempo cria um ambiente favorável para pragas. Mas, o fato é que é o uso de agrotóxicos é extenso no Brasil e impacta a saúde dos profissionais que aplicam os produtos e a qualidade do solo. Usando um paralelo com o setor de construção, muito criticado pelo uso de amianto que contaminou tanto os funcionários quanto moradores, existe certa probabilidade de que no futuro os riscos dos efeitos do uso extensivo de agrotóxicos se vire contra as empresas agrícolas operando no Brasil. Em recente estudo que fizemos, descobrimos que das 20 empresas líderes do agronegócio brasileiro, 16 falavam da importância do tema de saúde e segurança ocupacional nos seus relatórios de sustentabilidade. Mas o que particularmente eu não entendo é como empresas químicas multinacionais, produtoras de agrotóxicos, estão arriscando sua reputação mundial por vender um pouco mais no Brasil, especialmente produtos que estão proibidos na maioria dos países mais desenvolvidos. Essa bomba, certamente, vai explodir no futuro!
Manchete 3: Extinção de abelhas causa uma queda de 63% na produtividade do agronegócio no Brasil
Fato real nos bastidores: O uso de agrotóxicos impacta todo um ecossistema sensível. Estudos mostram o declínio de populações de abelhas, que são essenciais para a polinização. Uma matéria da Deutsche Welle intitulada “Por que o Brasil deveria se importar com a morte de abelhas” apresenta que mais que 500 milhões de abelhas foram encontradas mortas por apicultores no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul e São Paulo. Elas são responsáveis pela polinização de 70% das plantas cultivadas para alimentação. Potencialmente você já ouviu dizer: “Se as abelhas desaparecerem da face da terra, a humanidade terá apenas mais quatro anos de existência. Sem abelhas não há polinização, não há reprodução da flora, sem flora não há animais, sem animais não haverá raça humana.” De maneira errônea, muitas vezes a frase é atribuída a Einstein – mas seja quem quer que tenha dito, trata-se de um fato. Quem, se não as abelhas, vai polinizar a soja plantada no Brasil?
Até aqui vão as manchetes negativas. Vocês podem pensar – não tem nada positivo? Tem! O Washington Post fez um negócio hilário este ano. Publicaram uma edição fake com manchetes que o mundo gostaria ler, tais como: “Trump deixa Casa Branca rapidamente, assim terminando a crise do governo” ou “Celebrações em todo mundo após Trump deixar poder”. Inspirado por este exemplo: quais notícias você adoraria ler sobre o agronegócio brasileiro? Aqui é a minha:
“Brasil recupera florestas perdidas e aumenta o faturamento de produtos da Amazônia em 34%”
Fato de bastidor: Um estudo da NASA publicado em fevereiro 2019 expõe que a terra está mais verde hoje do que há 20 anos  principalmente graças a Índia e China. Usando tecnologias já existentes, sabemos que é possível criar um agronegócio sustentável, que explora e valoriza a floresta Amazônia de pé, seja apoiando a exploração de frutas exóticas, da piscicultura, da madeira, da biotecnologia, ou do turismo sustentável.
São as decisões que os executivos do agronegócio estão tomando hoje que vão determinar quais headlines vamos ler no futuro. Serão manchetes não só sobre as empresas que eles capitaneiam, mas também sobre o papel do Brasil num mundo cada vez mais degradado ambientalmente. Será que dá para fazer bons negócios numa sociedade que vive desarticulada com o meio ambiente do qual ela depende?
* Heiko Hosomi Spitzeck é Diretor do Núcleo de Sustentabilidade da Fundação Dom Cabral