Quem tem medo dos feminismos?

Publicado em 16/04/2018 por Folha de S. Paulo Online

Em novembro de 2017, o jornal norte-americano The New York Times publicou a notícia de que havia criado uma editoria de gênero, sob o comando da experiente jornalista Jessica Bennett. Aparentemente, eles não temem esse debate.

No Brasil, boa parte da grande imprensa ainda trata gênero como comportamento, em cadernos voltados para moças, que falam sobre temas palpitantes como cabelos e bolsas e anunciam em letras garrafais a emergência dessa novidade que é uma mulher com opinião. Uma reportagem publicada no exterior sob manchete "tsunami feminista", aqui chega como "tsunami feminino". Lutas são noticiadas como ajuda, rebaixando nossas conquistas à categoria terapêutica, chá com biscoito.

Manter os termos feminismo e gênero como tabu, na imprensa, é corroborar com as cruzadas antigênero que disseminam fake news para afirmar que "pregamos" a tal "ideologia de gênero". Apertando a tecla "sap" do repertório mal-intencionado: ideologia de gênero é atacar a família tradicional estimulando pessoas a serem gays, trans, lésbicas etc. e a trocar o sexo das crianças na escola.

Segundo a professora da London School of Economics, Sonia Correia: "As campanhas antigênero, ao contrário do que proclamam seus arautos, não se gestaram nas bases das sociedades, e sim nas altas esferas da política internacional e de elaboração teológica". A ideia de que há um forte potencial desestabilizador da dita ordem natural dos sexos no que falam os feminismos fez com que, em 2015, os legislativos de oito estados brasileiros votassem pela eliminação do termo gênero dos planos estaduais de educação -decisões semelhantes foram aprovadas em vários municípios.

Em seguida, a bancada dogmática da Câmara Federal também excluiu o termo do decreto administrativo presidencial que restringia o status da Secretaria de Políticas para Mulheres. A disputa determina que: leu gênero, troque por sexo. A toque de caixa, na canetada do poder, pululam projetos picantes sobre sexo alimentício.

Acreditamos que boa parte dos homens não conseguiria ser mulher e viver sob o machismo nem por 15 minutos. Daí seu pavor dos feminismos. Melhor nem nomeá-los. Por isso saudamos o fato de a Folha publicar a primeira coluna feminista, pós-Primavera das Mulheres, em um jornal impresso brasileiro de grande circulação -embora este mesmo jornal publique apenas 27 mulheres entre seus 125 colunistas. Como chegamos aqui? Somos editoras do blog #AgoraÉQueSãoElas, desta mesma Folha.

O #AEQSE é um coletivo que emerge da fricção entre as ruas e as redes, em 2015, a partir da percepção de que, nos meios de comunicação, a narrativa permanecia um privilégio dos mesmos. Era preciso disputar espaços de fala e ocupá-los com nossas vozes. Durante a semana #AgoraÉQueSãoElas, milhares de colunas e blogs de homens foram assinados por mulheres. Chegamos a ter 65 milhões de menções no Twitter e ocupamos a bancada do Jornal Nacional com duas mulheres. Tomamos a palavra.

O fruto maduro do motim foi a criação do blog, um espaço curatorial capaz de dialogar do pop aos movimentos sociais, da academia às artes. A partir de hoje, passamos a assinar em dupla esta coluna quinzenal, escrita com a pena dos afetos alegres, capazes de iluminar as sombras dos medos e preconceitos.