Revolução no campo

Publicado em 28/05/2019 por JM Online

José Humberto Guimarães
Um território com a vasta área geográfica de 454 mil hectares, composto em sua maior parte por superfícies planas e levemente onduladas, a uma altitude entre 700 a 1.000 metros acima do nível do mar, permeado por extensa e caudalosa malha hídrica, constitui-se na dádiva que a natureza destinou para esta parcela do planeta, cujos habitantes originais o denominaram de Y-berab, ou terra da água que brilha. 
Estas terras de campos e cerrados arenosos, naturalmente revestidas de vegetação arbórea tortuosa e cascuda e de gramíneas grosseiras, eram, em sua maior parte, consideradas imprestáveis e inapropriadas para cultivos. A alimentação do povo nativo era obtida em poucas e pequenas glebas de fertilidade natural. A dieta nutricional era enriquecida com pescado apanhado nas águas brilhantes as quais também ofereciam o precioso líquido para a serventia pessoal.
Frequentes investidas de aventureiros vindos de Vila Rica à procura de ouro e pedras preciosas, tentaram expulsar os nativos locais e mudar o nome da região, mas os esforços foram em vão. Por todos os lados, só se deparavam com águas brilhantes. O linguajar dos invasores, no entanto, transmudou o nome de Y-berab para Uberaba. A largueza dimensional do território favoreceu a expansão da pecuária bovina e provocou a busca por reprodutores para melhoramento do gado curraleiro nativo, encontrando-se aí os Zebus que padrearam os rebanhos e iniciaram o melhoramento genético que revolucionou a pecuária bovina brasileira.
E assim foi que Y-berab permaneceu, por um grande espaço de tempo, predominado pela pecuária bovina, até que na década de 1960 a disponibilização de vultosos recursos por parte do governo federal, através de incentivos fiscais, mobilizou grande elenco de empreendedores para o plantio de pinus, eucalipto e café. Milhares de hectares de florestas e cafezais, embora contando com generosos subsídios, não vingaram. Paralelamente, plantava-se arroz e milho sem a necessária aplicação de técnicas que vitalizassem as áreas exploradas, buscando-se principalmente a futura formação de pastos para atender a bovinocultura em crescimento.
Mas a grande revolução no campo produtivo ocorreu justamente sobre as terras fracas e desnutridas, mas planas e mecanizáveis. E, a partir da década de 1980, entremeio às culturas de arroz e milho e à implantação de pastagens é que começaram a ser introduzidas lavouras de soja na terra que exigia tratos com correção, adubação e conservação do solo. Foi criada a Bolsa de Arrendamento de Terras, instituição que estabeleceu um programa inédito e inovador para a ocupação tecnificada das terras ácidas e pobres, porém topograficamente aptas à mecanização. A sojicultora exigia profissionalismo e investimentos financeiros para produção da oleaginosa. Naquela época, a pecuária bovina utilizava um território com 250 mil hectares, alojando 180 mil animais. As lavouras de grãos ocupavam menos de 20 mil hectares, sendo que a sojicultura, apenas 8 mil hectares.
Trabalhando na atração de profissionais agricultores, a Bolsa buscou e contribuiu para instalar nos campos, preferencialmente, a cultura da soja. Na atualidade, no município de Uberaba estão consolidados cerca de 220 mil hectares de lavouras de soja, milho, sorgo, cana-de-açúcar, entre outras e a pecuária bovina ocupa reduzido espaço, mas mantém um rebanho numericamente igual e qualitativamente muitíssimo superior ao dos anos de 1980, quando se iniciou o programa que faz de Uberaba um dos maiores produtores de alimentos do país. 
(*) Consultor para parcerias e arrendamentos rurais, ex-secretário de Agricultura de Uberaba
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