Sínodo incomoda governo, que não possui um plano para a Amazônia

Publicado em 30/07/2019 por O Globo

Retórica governista sobre suposta cobiça internacional na região ecoa uma fase do regime militar
Poucas coisas têm provocado tanta exacerbação na Presidência da República como o Sínodo da Amazônia, convocado pelo Papa Francisco para o mês de outubro no Vaticano. “Queremos neutralizar isso aí”, anunciou o chefe do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno, em fevereiro. “A Amazônia é nossa, não de vocês”, disse enfático o presidente a jornalistas estrangeiros, na semana passada, como se fossem embaixadores de países que ele julga potenciais “invasores” da Amazônia brasileira.
Essa retórica encrespada a respeito de uma suposta cobiça sobre metade do território nacional, quase inexplorada, ecoa uma fase do regime militar, quando se assistiu a uma curiosa aproximação entre extremistas fardados do nacionalismo e seus símiles na esquerda anticapitalista e defensora da luta armada. Foi resgatada por Jair Bolsonaro na campanha eleitoral, com aval público de algumas autoridades militares que ajudaram a difundir a fantasia da “internacionalização” do Triplo A (derivação de Andes, Amazônia e Atlântico). Nesse ambiente, dominado pelo espectro de uma rudimentar geopolítica que sequer admite o fim do comunismo, o Sínodo da Amazônia acabou no centro das preocupações do Planalto.
A presença da Igreja na região data de cinco séculos. Sob o peculiar conceito do Vaticano da Pan-Amazônia, a evangelização se estende por nove países (Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Peru, Venezuela, Suriname, Guiana e Guiana Francesa), em trecho habitado por mais de três milhões de pessoas. O Papa a definiu como objeto de estudos para a renovação da própria Igreja. Convocou os bispos em sínodo, com função prática e concreta. Pretende produzir uma reflexão além do âmbito eclesial. Isso porque, rica em biodiversidade, multiétnica, pluricultural e plurirreligiosa, a Amazônia é uma área onde a defesa da vida estimula mudanças comportamentais, não só dos Estados nacionais como da própria Igreja. O debate é relevante também para outros biomas ameaçados, como o da Bacia do Congo, o corredor mesoamericano e as florestas tropicais asiáticas.
Os fundamentos do sínodo não confrontam a Constituição brasileira, aliás, pouco observada, sobretudo, nas três centenas de palavras que resguardam os indígenas nos seus direitos originários sobre terras qualificados como “inalienáveis, indisponíveis e imprescritíveis”.
É conhecido o conteúdo dos documentos da Igreja, assim como da Constituição. Até hoje, porém, não se conhece um plano consistente do governo Bolsonaro para a Amazônia.