A solução de Duhalde para a crise argentina

Publicado em 14/09/2018 por Valor Online

A solução de Duhalde para a crise argentina

Vestido informalmente, com calça de sarja e sapato sem meia, o ex-presidente Eduardo Duhalde (2002-2003) entrou em sua sala na modesta sede do Movimento Produtivo Argentino (MPA), um "think tank" no bairro portenho de Montserrat, cheio de dúvidas sobre as eleições presidenciais no Brasil. Era quinta-feira à tarde e o ataque contra Jair Bolsonaro ocorreria poucas horas depois. Duhalde estivera dias antes em Buenos Aires com o filósofo Mangabeira Unger, um dos principais conselheiros do pedetista Ciro Gomes, mas é no amigo Lula que prefere concentrar suas atenções.

"Aqui na Argentina, onde existe um festival de corrupção, soa ridículo o motivo pelo qual Lula foi condenado", disse o dirigente peronista ao Valor. E conta ter ligado para o petista, na véspera de sua prisão, com um palpite: pedir asilo em uma embaixada estrangeira, possivelmente a do Uruguai, de onde poderia continuar falando "o que bem entendesse" sobre política. "Se te colocam na prisão, não sai mais", concluiu naquele telefonema.

Condutor do país em um momento dramático, após a megadesvalorização do peso e o calote na dívida, Duhalde fala o que bem entende sobre a atual situação argentina. Critica o presidente Mauricio Macri, que "não se deixa ajudar" nem entende que "governar o país não é como governar a capital" - ele foi prefeito de Buenos Aires antes de chegar à Casa Rosada. "Mas não queria ficar batendo no Macri, não vale a pena...", interrompe a si próprio.

Ex-presidente quer Roberto Lavagna na Casa Rosada em 2019

Duhalde quer falar sobre a única pessoa, segundo ele, capaz de fazer uma "transição de modelo" na Argentina. Nem o intervencionismo kirchnerista nem o excessivo liberalismo. Com uma economia mais produtiva e menos financeira. "Não tenho dúvidas de que vai ser candidato e ganhar no primeiro turno", ressalta.

Trata-se de Roberto Lavagna, ex-ministro da Economia durante seu governo e de seu sucessor, Néstor Kirchner, e que se tornou o rosto mais visível da recuperação econômica do país na década passada. Sob sua gestão, o PIB cresceu 8% ao ano e a dívida foi reestruturada em termos extremamente favoráveis. Nos bastidores, tem se mostrado um crítico ácido da política econômica de Macri.

Duhalde saca então, de uma pilha de papéis em sua mesa de trabalho, pesquisa de opinião recente mostrando o ex-ministro com 55% de imagem positiva - maior índice entre 19 figuras públicas avaliadas pelo instituto do renomado cientista político Sergio Berensztein.

O ex-presidente diz estar conversando com Lavagna todas as semanas e pedindo que se mantenha em silêncio: "Não é a hora de falar. Do jeito que as coisas estão indo, até Jesus Cristo vai ser criticado se abrir a boca agora, na Argentina".

Além de respeito em setores diversos da sociedade argentina, Lavagna tem uma vantagem sobre qualquer outro aspirante à Casa Rosada. Aos 76 anos, dificilmente seria um tipo de vitorioso nas urnas que já chega ao poder de olho na reeleição. Em teoria, pelo menos, a idade o deixaria na condição de presidente de um mandato só.

Duhalde acredita que as candidaturas para as eleições de outubro de 2019 começarão a se definir entre o fim deste ano e o início do próximo. E o economista ligado à Frente Renovadora, uma ala do Partido Justicialista (Peronista), estaria disposto a seguir adiante com apenas um condição: que todos estejam de acordo no peronismo, "que seja um governo de maioria e de ideias sólidas, não as ideias do kirchnerismo". "Ou melhor, do cristinismo", corrige-se, estabelecendo uma diferença entre Néstor (2003-2007) e Cristina Kirchner (2007-2015).

"O que tira um país da crise é a produção", afirma Duhalde, reconhecendo que Macri herdou uma situação difícil, mas não soube apontar um rumo. Não ele pessoalmente, pondera o ex-presidente, mas os economistas que o cercam. "Eu nunca tive a pretensão de entender de macroeconomia. A questão é saber escolher. Aqui se criou uma ideia de que os subsídios são um mal. São um mal quando não se aplicam direito, mas indispensáveis para pequenas e médias empresas."

Para Duhalde, o que sempre torna mais desafiadora a superação das crises na Argentina é que o país acostumou-se a ser "bimonetário". "No Brasil, quando eu só tenho dólares para pagar alguma coisa, ninguém aceita e as pessoas me dizem para ir ao aeroporto trocar por reais. Quando há desvalorizações, o preço dos imóveis continua igual", admira-se. Já a cabeça do argentino comum é difícil de desdolarizar. "Na nossa história, tivemos três vezes conversibilidade cambial. E nunca acabou bem."

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À gravidade da crise econômica soma-se, na Argentina, o estouro neste ano do escândalo de pagamento de propinas conhecido como "cadernos K" - em referência ao envolvimento de altos funcionários nas administrações kirchneristas.

Diante de tanto mau humor dos eleitores, cabe perguntar: haveria espaço para o surgimento de um candidato antissistema no estilo Bolsonaro ou um "outsider" na linha Luciano Huck? Para o analista Julio Burdman, professor da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires, essas hipóteses soam improváveis.

"A diferença entre o Brasil e a Argentina é que aqui não existe nenhuma corrente defensora do regime militar que seja eleitoralmente viável", afirma.

Marcelo Tinelli, apresentador de uma espécie de "Dança dos Famosos" que tem a maior audiência na TV argentina, até foi cotado recentemente como presidenciável. O professor da UBA tem baixa expectativa, no entanto, de que sua candidatura prosperaria. "A Argentina é um país grande e federal. Os partidos nacionais são somatórios de agremiações locais", explica Burdman. Para ele, é inviável se posicionar bem numa corrida presidencial sem esse suporte partidário. Qualquer debutante, portanto, teria que se submeter às velhas forças mais tradicionais.

O analista acrescenta que o próprio Macri venceu em 2015 apresentando-se, com certo exagero, como um "jeito novo" de fazer política, levando jovens para postos-chave do gabinete, mas isso agora pode ser interpretado por muitos eleitores como uma das razões da crise. "Essa sensação produz uma volta à cena de dirigentes políticos de 70 anos. Expressa um cansaço de novidades e a avidez de setores do eleitorado por políticos com experiência na gestão de crises", resume. É a hora de Lavagna?

Daniel Rittner é repórter. A titular da coluna, Claudia Safatle, está em férias

E-mail: daniel.rittner@valor.com.br