Trinta anos depois de morrer, Chico Mendes lidera a resistência na Amazônia

Publicado em 18/12/2018 por Yahoo

Por Lucas Reginato / Agência Plano
Há 30 anos, Chico Mendes foi assassinado com tiros de escopeta em Xapuri, sua terra natal, no Acre. Foi morto no conflito que enfrentou durante seus 44 anos de vida, e que dura até hoje, pela posse do solo amazônico. De um lado, o interesse econômico, gerado pela soja e pelo gado, que encontra na floresta um empecilho, a ser derrubado, para a expansão latifundiária. Do outro, as comunidades que, desde sempre, conviveram com a natureza, aprenderam as infinitas riquezas que ela só oferece se for preservada. Em Xapuri, 30 anos depois, estes que defendem a Amazônia estão reunidos ao redor do líder que sacrificou a vida.
“Ele chegou a dizer: ‘se a minha morte for necessária para salvar o meu povo e a floresta, então eu morrerei feliz’”, conta o seringueiro Joaquim Belo, presidente do Conselho Nacional das Populações Extrativistas. A entidade foi idealizada por Chico Mendes em 1985, quando realizou, em Brasília, o 1º Encontro Nacional dos Seringueiros. O Conselho se reúne desde então, para mobilizar a defesa da floresta e de quem vive nela. Neste ano, o evento ocorre em Xapuri, entre os dias 15 e 17 de dezembro. “Não podíamos deixar passar em branco os 30 anos da morte dessa figura que é tão importante para nós”.
Ângela Mendes, a filha de Chico, ocupa lugar na direção do Conselho e coordena o Comitê Chico Mendes. Ela explica que o “evento em Xapuri vai ressaltar esses 30 anos de conquista, mas também dizer que por mais 30 anos queremos garantir esses territórios. A gente quer avançar para que as populações amazônicas tenham uma vida melhor. A memória do Chico fala de preservação, de sustentabilidade, e, principalmente, de futuro. Garantir o território para as populações extrativistas foi um grande legado dele. Os conflitos por terra se resolvem quando as reservas são criadas. Esse é um modelo que deu certo, que preserva a vida das pessoas e 13,8% da Amazônia”.
“O conceito da reserva extrativista surgiu no Encontro Nacional dos Seringueiros em 1985. É uma solução inovadora e reconhecida no mundo inteiro”, explica a antropóloga Mary Allegretti, que na época estudava a vida desses trabalhadores da Amazônia. “É um acordo entre o Estado, que protege a posse dessas famílias que estão lá por gerações, e a comunidade, que protege a floresta”. A professora fez a primeira entrevista com Chico Mendes em 1981, e narra como ficou “impressionada com o que encontrou em Xapuri. Eram seringueiros libertos, havia um sindicato organizado, que ele liderava, contra os desmatamentos que cresceram com o incentivo econômico dos militares”.
No contexto histórico, o papel de Chico Mendes é precursor, e alertava para a causa ambientalista ainda pouco divulgada. O líder indígena Aílton Krenak lembra de conhecê-lo no momento em que “Chico se movia do sindicalismo, inspirado pela CUT, para a emergência da Amazônia. E foi ensinar ao sindicalista, que lutava por direitos e por terra, que a luta era pela vida em sentido planetário. Ele tinha uma visão global, convocou a humanidade a cuidar do planeta, e a Amazônia é parte privilegiada pela sua biodiversidade e maravilhosa capacidade de produzir vida”, continua. “A ideia de desmatar era aceitável, porque era o progresso, então Chico era um camarada muito avançado”.
“E essa doença está de volta”, lamenta Krenak, “de achar que progresso é meter o trator, enfiar soja, gado e capim, essa burrice que acha que tem que destruir a floresta para avançar o desenvolvimento, que virou lema desse governo que está se constituindo”. A conjuntura política no Brasil torna ainda mais urgente o evento em homenagem ao mártir amazônico, mas Krenak avisa que, “mais importante do que fazer romaria para Xapuri, a gente precisa ser capaz de levar a lição de Chico e honrar a memória dele.”
Assassinado em dezembro de 1988, o seringueiro não viu se concretizar seu grande legado. A repercussão internacional da tragédia deu força para que apenas em 1990 fossem criadas as primeiras 4 reservas extrativistas, entre as quais a reserva Chico Mendes, no Acre. Hoje, são quase 100 unidades de conservação neste modelo, mas os conflitos cresceram nos últimos anos. À espera de um Congresso com grande tendência ao agronegócio, e de um governo pouco tolerante à causa ambiental, quem se encontra em Xapuri faz parte da resistência. E quem organiza o movimento é o homem que deu a vida pela causa.