Trump exige que Otan dobre os gastos com defesa

Publicado em 12/07/2018 por Valor Online

Trump exige que Otan dobre os gastos com defesa

AP

Primeiro dia do encontro foi marcado por embate entre Merkel e Trump

O presidente dos EUA, Donald Trump, pressionou ontem os aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan, aliança militar do Ocidente) a dobrar a meta de gastos com defesa para 4% do PIB, ao mesmo tempo em que criticou a Alemanha por seus gastos militares e o acordo do país para importar gás da Rússia.

Uma autoridade da Casa Branca confirmou que a decisão de Trump, de dizer aos líderes da Otan que a meta de gastos para 2024 é baixa demais, foi tomada meses depois das críticas do presidente americano aos aliados por estes não cumprirem a meta de 2%.

O presidente da Bulgária, Rumen Radev, descreveu a reação tensa dos líderes à sugestão. "Todos se perguntaram o quanto Trump falava sério sobre 4%."

Apesar dos comentários de Trump, os líderes concordaram com a declaração conjunta da reunião, em que os 29 Estados membros voltam a se comprometer com a meta de 2% até 2024 e elogiam os progressos alcançados no aumento dos gastos com defesa.

Trump alardeou os gastos dos EUA com defesa. Disse que os EUA deveriam gastar menos e exigiu que os aliados aumentem seus gastos. Jens Stoltenberg, secretário-geral da Otan, questionado sobre a demanda de Trump, disse: "Deveríamos primeiro chegar aos 2%. Meu foco está nisso".

Trump começou sua visita acusando a Alemanha de ser "refém da Rússia" por causa de seu apoio ao Nord Stream 2, gasoduto que levará gás da Rússia diretamente para o país, através do Mar Báltico.

Em reunião com Stoltenberg, Trump classificou o apoio da Alemanha ao projeto de "muito triste" e disse que "deveríamos nos prevenir contra a Rússia, e a Alemanha vai pagar bilhões e bilhões de dólares por ano para a Rússia". Dirigindo-se a Stoltenberg, disse: "Explique isso".

Trump também classificou os gastos militares da Alemanha de "inadequados".

Angela Merkel respondeu que a Alemanha é a segunda maior fornecedora da tropas para a Otan, atrás dos EUA. Lembrando sua experiência de viver na parte da Alemanha que foi controlada pela União Soviética, ela disse: "Estou muito feliz hoje por estarmos reunidos em liberdade. Por causa disso, podemos dizer que conduzimos nossas próprias políticas e tomamos decisões independentes".

A altercação intensificou o clima tenso da reunião, que já era esperado pelos líderes, após meses de críticas de Trump aos gastos com defesa dos aliados. Também acabou com as esperanças de autoridades americanas por uma cúpula que pudesse demonstrar unidade antes do encontro de Trump com o presidente da Rússia, Vladimir Putin, na segunda-feira.

Uma autoridade da Otan disse que as expectativas com a reunião de cúpula são muito baixas, dadas as críticas de Trump à Alemanha. "O clima antes da reunião do G-7 também era muito ruim e ela acabou pior que o esperado."

Trump e Merkel se encontraram posteriormente, ontem, fora da agenda da reunião, quando ele voltou a dizer quer está preocupado com o apoio da Alemanha ao gasoduto da Rússia. Falando a jornalistas no fim da reunião, Trump adotou um tom mais amigável que o anterior, descrevendo sua relação com Merkel como "muito, muito boa", e os laços entre as duas nações como "formidáveis".

Merkel disse a jornalistas que ficou satisfeita por ter conversado com Trump, pois "somos bons parceiros e queremos continuar cooperando no futuro".

Os dois líderes vêm tendo uma relação tensa sob o governo Trump. O presidente americano já criticou várias vezes os gastos da Alemanha com defesa e suas políticas de imigração.

Em Washington, democratas reprovaram os comentários de Trump. Chuck Schumer (Califórnia), líder da minoria democrata no Senado, e Nancy Pelosi (Califórnia) líder de minoria democrata na Câmara, disseram que "os insultos insolentes a um dos mais leais aliados da América, a Alemanha, são uma vergonha".

As críticas de Trump às relações da Alemanha com a Rússia ocorreram dias antes de sua reunião com Putin em Helsinki, num esforço para restabelecer as relações entre EUA e Rússia. Ele vem sendo criticado com frequência em Washington por se mostrar afável demais com Putin, como na ocasião em que cumprimentou o líder russo por sua vitória nas eleições, este ano, apesar de ter sido aconselhado por assessores da área de segurança nacional a não fazer isso.

Muitos aliados da Otan também estão cautelosos com os esforços de Trump para melhorar as relações com Putin, a quem ele sempre elogiou, apesar das investigações sobre os supostos esforços de Moscou para interferir nas eleições americanas de 2016. Vários países, como o Reino Unido, demonstraram preocupação com o pedido feito por Trump, para que a Rússia volte a fazer parte do G-7, quatro anos depois de ela ter sido expulsa pela anexação da Crimeia.

Sobre os comentários de Trump a respeito do gasoduto, Ursula von der Leyen, ministra da Defesa da Alemanha, disse: "Realmente não entendo o que ele quer dizer com isso". O Ministério da Economia da Alemanha rejeitou as alegações de Trump, dizendo que o país diversificou seus recursos, aumentando a produção de energias renováveis, e que continuará a reduzir sua dependência com importação.

A Alemanha é a maior importadora de gás natural da Rússia na Europa. Ela respondeu por mais de 20% das compras dos 28 membros do bloco em 2017, segundo a Eurostat, agência de estatísticas da União Europeia. As importações da Rússia responderam por 40% das compras anuais de gás da Alemanha nos últimos dois anos.

Depois que deixar a reunião da Otan, hoje à tarde, Trump continuará seu giro pela Europa, com uma reunião em Londres com a premiê britânica, Theresa May, viajando depois para a Escócia, onde ele possui dois campos de golfe, e finalmente para Helsinki.

Nas últimas semanas, Trump entrou em choque com vários líderes mundiais que participaram da cúpula da Otan. Em junho, após a cúpula do G-7 no Canadá, ele tuitou que o premiê canadense Justin Trudeau era "desonesto" e "fraco". Ele também se estranhou com o presidente da França, Emmanuel Macron, por causa de tarifas, depois que Macron disse que seis outras nações vão unir na questão, sem os EUA, se isso for necessário.

Trump encontrou-se com Macron ontem, após o que os dois elogiaram suas relações. No fim do encontro, Macron foi perguntado se concorda com a descrição de Trump sobre a Alemanha, de que ela está "refém" da Rússia. Macron disse que não. Logo em seguida a entrevista foi encerrada.

Ao cumprimentar Stoltenberg no começo de seu encontro com o secretário-geral da Otan, Trump gracejou que Stoltenberg gosta dele. "Ele pode ser o único, mas para mim tudo bem", acrescentou.