A violência dentro da TV

Publicado em 13/10/2017 por Jornal O Estado do Ceará

N ão é difícil ver nos noticiários de Fortaleza a exacerbação espetacularizada da violência. Ao acompanhar essa competição das emissoras pela audiência, substituímos o momento de lazer e descontração pelo apelo polêmico, exagerado, que faz do sensacionalismo as nossas emoções. Hoje, até os telejornais nacionais mudaram sua panorâmica, as matérias estão mais apelativas, mais ligadas à sensação emotiva do que à razão, com enfoque nas tragédias.

A produção e a programação televisiva deveriam obedecer a critérios de difusão para finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas, respeitando os valores éticos e sociais da pessoa, bem como da família, conforme está esculpido no artigo 221 da Constituição Federal. A liberdade de expressão foi uma conquista alcançada com muito esforço e luta pelo nosso país, mas esse direito não pode ser exercido de forma leviana, sob pena de macular a nobre essência da sua legitimação.

Assim, a informação noticiada deve ser para a formação de uma opinião pública sensata, de sujeitos conscientes, para a emancipação cidadã. Porém, sabemos que a transformação de "fato" em "notícia" passa pela lógica cultural de cada região. Para alguns pensadores, o que se exibe na televisão é reflexo da sociedade, mas, para outros, irá ser refletido por ela.

Cada edição transmitida pode atender as expectativas e demandas dos telespectadores na medida em que estiver embutida nela a intenção de esclarecer, orientar ou mesmo despertar a consciência que envolve os problemas sociais, como educação, saúde, moradia e segurança.
Mas, além da natureza do conteúdo, outro ponto pode influenciar na qualidade da notícia a ser veiculada: a preparação dos profissionais responsáveis pela sua produção ou apresentação, haja vista que tão importante quanto a seriedade da fonte é a credibilidade de quem a transmite. Reza o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros em seu artigo 7º, inciso IX, que é vedado "valer-se da condição de jornalista para obter vantagens pessoais". Mas quantos colegas de profissão já se aproveitaram da afeição pública para fins eleitorais?

Isso se dá porque muitos profissionais que estão no mercado não receberam o preparo acadêmico necessário para desenvolver a missão que lhe foi confiada. A desobrigação do diploma para o exercício da função de jornalista é um dos fatores que mais tem colaborado para esta realidade. Todavia, o valor da profissão não pode ser desmerecido por conta disto, nem tampouco prejudicada a sociedade pela falta de ética e preparo de alguns comunicadores, que ao invés de informar, buscam alienar ou entreter os telespectadores.

Nesse cenário, ao invés de corroborarmos com a banalização da vida, assistindo à exibição de sucessivos crimes veiculados sob o álibi de "mostrar a verdade doa a quem doer", deveríamos refletir sobre o papel histórico e cultural da TV no país, debater acerca da ética dos profissionais de jornalismo no exercício de suas atividades e discutir a função da mídia na sociedade contemporânea.

Arnaldo Mota
Jornalista