Zurich tem problemas em Floripa e Confins, mas quer mais aeroportos

Publicado em 14/09/2018 por Valor Online

Zurich tem problemas em Floripa e Confins, mas quer mais aeroportos

Ruy Baron/Valor

Conrad, CEO da Zurich Airport Latin América: "Não temos preferência, mas sabe-se que haverá grande competição por Recife"

O grupo suíço Flughafen Zurich AG, operador do aeroporto de Florianópolis (SC) e com participação minoritária em Confins (MG), pretende ampliar seus negócios no Brasil e tem interesse nos três blocos que o governo corre para leiloar até dezembro.

A quarta rodada de concessão de aeroportos ainda depende de sinal verde do Tribunal de Contas da União (TCU) e o cronograma para a realização do certame neste ano está bastante apertado. A Zurich AG, no entanto, se diz preparada para entrar na disputa e não vê razões para adiamento.

"Estamos prontos", disse o CEO da Zurich Airport Latin América, Stefan Conrad. Ele garante que há interesse nos três blocos ofertados. "Não temos uma preferência clara, mas sabe-se que haverá grande competição por Recife e menos concorrência nos aeroportos do Mato Grosso", acrescentou, em conversa ontem com jornalistas.

Como já mostrou o Valor, há divergências internas no governo sobre fazer ou não o leilão neste ano. O Palácio do Planalto tem pressa. Já a Secretaria de Aviação Civil acha que deve ser respeitado o prazo - hoje impossível de ser cumprido - de 100 dias entre publicação do edital e realização do certame. Enquanto isso, uma ala no Ministério do Planejamento é contra a licitação de aeroportos em blocos.

Independentemente de quem vencer as eleições presidenciais, segundo o executivo suíço, a expectativa do grupo é de continuidade do programa de concessões aeroportuárias. "Não sei quem será o próximo presidente do Brasil, mas não espero um giro de 180 graus e a interrupção do programa de privatizações", ressaltou Conrad, lembrando que foi o próprio governo do PT quem iniciou a concessão de aeroportos.

O governo Michel Temer desenhou a próxima rodada de concessões em lotes regionais. O maior dos lotes é de seis terminais no Nordeste: Recife, João Pessoa, Maceió, Aracaju, Campina Grande (PB) e Juazeiro do Norte (CE). O bloco de Mato Grosso tem quatro aeroportos: Cuiabá, Sinop, Rondonópolis e Alta Floresta. No Sudeste, são dois ativos: Vitória e Macaé (RJ).

Na avaliação do presidente da Zurich, essa nova rodada corrige distorções de contratos anteriores, como obras obrigatórias de ampliação de infraestrutura. Ele considera mais inteligente um modelo com "gatilho" de demanda, ou seja, as obras são atreladas ao crescimento da movimentação de passageiros e não a datas fixas.

Além das oportunidades com as novas concessões, Conrad confirma o interesse do grupo na compra do aeroporto de Viracopos (SP), em parceria com a gestora de private equity IG4. A condição, entretanto, é que o negócio seja encaminhado até o fim do ano. A concessionária de Viracopos está em recuperação judicial.

Apesar da disposição para crescer, o grupo suíço - um dos maiores operadores aeroportuários do planeta - enfrenta incertezas em seus dois ativos no Brasil. Em Florianópolis, onde tem 100% da concessão, a Zurich está investindo R$ 550 milhões na construção de um novo terminal de passageiros. A obra deverá ser inaugurada entre agosto e outubro de 2019.

Ocorre que o governo estadual não conseguirá entregar o acesso rodoviário, uma responsabilidade do setor público, à nova estrutura. Restará apenas a possibilidade de um caminho já pronto, mas muito mais longo. Estudos de tráfego apontam que passageiros poderão levar mais de uma hora e meia do centro ao aeroporto. "Não é uma solução aceitável", disse o presidente da Floripa Airport, Tobias Markert.

A construção do acesso esbarra em um trecho de 1,1 quilômetro. Das 190 desapropriações necessárias, menos de um terço foram concluídas. Mesmo se a obra for iniciada agora, não haverá mais tempo suficiente para concluir o projeto antes da inauguração do novo terminal. "É quase impossível terminar a estrada a tempo."

Em Confins, onde tem 12,75% de participação societária (o controle é da CCR), a ameaça é de reabertura do aeroporto de Pampulha para voos diretos a outros Estados. "Belo Horizonte não tem demanda para dois aeroportos", argumenta Conrad. O uso da Pampulha só foi bloqueado por uma medida cautelar do TCU, mas ela pode cair a qualquer momento.

Para Conrad, é um sinal "muito ruim" para investidores estrangeiros porque, na época do leilão de Confins, houve pronunciamentos oficiais assegurando que seria o único aeroporto da capital mineira com voos para outros Estados.

Outro problema é a exigência contratual de construção de uma segunda pista de pousos e decolagens até 2022. Conrad sustenta que não há demanda para isso. Por causa da recessão, o movimento de passageiros está 30% abaixo das projeções originais. A concessionária busca um acordo com o governo: postergar esse prazo em troca do dinheiro que deveria receber da Infraero por obras jamais concluídas antes da transferência do aeroporto à iniciativa privada.