Turquia: começa julgamento de líder pró-curdo acusado de "terrorismo"

Publicado em 07/12/2017 por Diário Catarinense

O julgamento do líder da oposição pró-curda na Turquia Selahattin Demirtas, acusado de atividades "terroristas", começou nesta quinta-feira, mais de um ano após sua prisão.

A audiência acontece no complexo penitenciário de Sincan, na província de Ancara, sem a presença do réu.

Selahattin Demirtas, um dos líderes do Partido Democrático dos Povos (HDP), pode ser condenado a até 142 anos de prisão no julgamento, que é considerado "político" por seus simpatizantes.

O governo turco o acusa de ter laços com o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), uma organização considerada "terrorista" por Ancara e por seus aliados ocidentais.

O HDP nega as acusações e afirma que este é um processo "político" contra um opositor ao presidente Recep Tayyip Erdogan.

Centenas de pessoas se reuniram nesta quinta-feira diante do tribunal para manifestar seu apoio a Demirtas.

"O único delito de Demirtas é ter sido opositor a Erdogan", disse uma manifestante, enquanto outras pessoas exibiam cartazes com mensagens como "as pressões não nos intimidam" ou "o HDP á a esperança e a esperança sempre está de pé".

Demirtas, que está detido na prisão de Edirne (nordeste) desde novembro de 2016, não estava presente na audiência, informou à AFP uma fonte partidária.

O HDP é o segundo partido de oposição no Parlamento. Além de Demirtas, uma dezena de pessoas foram presas e outras cassadas, no âmbito dos expurgos posteriores à tentativa de golpe de Estado de 15 de julho de 2016.

"É difícil não considerar o julgamento uma iniciativa politicamente motivada pelo governo turco para sabotar a oposição parlamentaria", afirmou Hugh Williamson, da ONG Human Rights Watch.

Demirtas, envolvido em mais de 100 processos judiciais, está em prisão preventiva há mais de 400 dias e ainda não compareceu a nenhum tribunal. A previsão era de que participaria por videoconferência na audiência desta quinta-feira.

O HDP denunciou a existência de uma carta que o ministério da Justiça teria enviado a todos os tribunais que acusam Demirtas para pedir que impeçam a sua presença física nas audiências.

Com Demirtas na prisão, o HDP perde seu principal líder para as eleições municipais, legislativas e presidenciais de 2019.

Este advogado, chamado por alguns de "Obama curdo", conseguiu transformar o partido em um movimento de esquerda moderno e progressista, que atrai mais do que o eleitorado curdo.

O HDP surpreendeu nas legislativas de junho de 2015, quando conquistou 80 cadeiras no Parlamento e deixou p governista Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP) sem maioria absoluta.

Mas nas eleições de novembro deste ano, o HDP perdeu 21 deputados.

Mesmo preso, Demirtas publicou um livro de contos, "Seher" ("Aurora"), cuja primeira edição de 20.000 exemplares se esgotou em três dias, informou a editora Dipnot. Até o momento foram vendidos 155.000 exemplares.

* AFP