Velhos problemas assombram PSDB e DEM

Publicado em 12/07/2018 por Valor Online

Velhos problemas assombram PSDB e DEM

A dez dias do início das convenções para a formação das alianças que disputarão a sucessão presidencial, PSDB e DEM, os dois tradicionais aliados, ainda debatem antigos problemas que acabaram dificultando o caminho da reconciliação que, na atual campanha, culminaria no apoio do DEM à candidatura presidencial de Geraldo Alckmin.

Ao Valor, lideranças do DEM fizeram uma retrospectiva dos desencontros e escaramuças entre os dois partidos, nessa aliança que remonta a 1994, primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso. São idas e vindas dramáticas num enlace de ideias e propostas que, na origem, retrocede à fundação da Nova República em 1985, já com a Frente Liberal.

"Está na hora de sair do divã e irmos juntos para as ruas", exorta o secretário-geral do PSDB, deputado Marcus Pestana (MG), relembrando que a aliança entre as duas siglas tem raízes históricas. "Estávamos juntos na redemocratização, estavam todos lá, Franco Montoro [que fundaria o PSDB], estava lá com Tancredo Neves, Marco Maciel, Aureliano Chaves", relembra.

Num momento em que uma ala do DEM defende a aliança com Ciro Gomes, do PDT, Pestana questiona a falta de afinidade entre eles. "Temos história e convergência ideológica, que identidade eles têm com o Ciro?" Ele aponta que o pedetista defende a reestatização de poços de petróleo, a revisão da reforma trabalhista, do teto dos gastos, e falou em expropriar a Eletrobras se ela for privatizada. "São bandeiras opostas às do DEM".

Na eleição de 2002, o então PFL despontava na corrida sucessória com a pré-candidatura da governadora do Maranhão, Roseana Sarney - primeira mulher a conquistar o comando de um Executivo estadual. Em algumas pesquisas, ela chegou a empatar com Luiz Inácio Lula da Silva (PT), fazendo sombra ao pré-candidato do PSDB, José Serra.

Mas uma ação da Polícia Federal enterrou a escalada eleitoral do PFL, futuro DEM: uma operação na empresa Lunus, de Roseana e seu marido, Jorge Murad, encontrou R$ 1,3 milhão em espécie, não declarados, forçando a pré-candidata a abandonar a empreitada. Na ocasião, a família Sarney identificou a digital de Serra no episódio, que até hoje nega relação com o caso.

Em seguida, o PFL rompeu com a base do governo Fernando Henrique, e o irmão de Roseana, Sarney Filho, pediu demissão do Ministério do Meio Ambiente. Ao fim, os tucanos escolheram para vice de Serra a deputada do PMDB, Rita Camata (ES).

Outra mágoa do DEM refere-se a 2014, quando o PSDB montou uma chapa pura para a sucessão presidencial: Aécio Neves, um mineiro, e Aloysio Nunes Ferreira, um paulista, como candidato a vice, escanteando o aliado histórico.

Agora cotado para a vaga de vice de Alckmin, o vice-presidente do DEM e ex-ministro da Educação Mendonça Filho (PE) diz que sua intenção, na verdade, é concorrer ao Senado. Por isso, afirma que se sente "confortável" em defender a aliança com o PDSB. "Se o Rodrigo [Maia, presidente da Câmara] sair da disputa, eu defendo o apoio ao Alckmin, por considerá-lo o mais preparado", disse ao Valor.

Mendonça reconheceu o passado de turbulências entre DEM e PSDB. "Houve alguns encontros e desencontros nesta convivência histórica", confirmou. Um deles, aponta, foi quando os tucanos fizeram escolhas que desagradaram o DEM. Por exemplo, em 2010 quando Serra escolheu o jovem deputado Índio da Costa (RJ), um novato no DEM, para ser o vice, quando essa não era a indicação da cúpula partidária. "Mas eu não fico olhando para o futuro levando em conta o passado, é hora de pensar para frente", conclui.

O líder do DEM na Câmara, Rodrigo Garcia (SP), diz que o partido tem um "protagonismo claro" nesta eleição. Em eventual reedição da aliança com o PSDB, a prioridade do partido não é a vaga de vice, como no passado, e sim o apoio dos tucanos à recondução de Rodrigo Maia à presidência da Câmara. "Lá temos muito mais força para influenciar o governo".

Garcia reconhece que toda coligação "tem momentos em que um partido pode ser solidário com o outro, outros em que podem estar divididos". Mas diz que hoje o DEM não tem problemas com o PSDB. "Quem acertou, quem errou, ficou no passado, o DEM quer um futuro que seja promissor".