Após delação premiada de Palocci, petistas temem prisão de Mantega

Publicado em 17/06/2017 por Correio Braziliense Online

José Varella/CB/D.A Press
Palocci com Mantega ainda em 2003: a nova delação soma-se aos relatos de executivos da Odebrecht e da JBS e complicam o homem que mais tempo passou no comando do Ministério da Fazenda


As acusações feitas por Antonio Palocci em sua delação premiada e antecipadas ontem pelo Correio, de que o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega vendia informações privilegiadas para bancos, como mudanças de políticas cambiais e alterações nas taxas de juros, e que teria levado vantagem ao negociar desonerações tributárias com empresas do setor automobilístico, alarmou o PT para o risco de o mais longevo dos titulares da equipe econômica ser preso. Mantega também é citado nas delações da Odebrecht, da JBS e complicou-se ao "lembrar-se" de que tinha uma conta não declarada na Suíça com saldo de US$ 600 mil.


Ao tentar se livrar de uma pena mais dura - tanto que negocia uma prisão domiciliar -, Palocci confessou os próprios crimes e não poupou o sucessor na condução da política econômica, com quem nunca teve uma boa relação. A sensação no partido é de que o cerco contra Mantega está se fechando. O ex-ministro teve, em setembro do ano passado, a prisão preventiva decretada pelo juiz Sérgio Moro. Mas este teve de voltar atrás, pois Mantega estava no hospital acompanhando a cirurgia da mulher, vítima de câncer. A situação agora volta a se complicar.

Além disso, admitem petistas, a decisão do presidente Michel Temer de autorizar o Banco Central a fechar acordos de leniência com instituições bancárias, a exemplo dos que estão sendo firmados com empresas investigadas na Lava-Jato, expôs ainda mais o PT. "Como os gigantes do setor financeiro poderão negociar penas mais brandas pelos crimes cometidos, resta a Palocci virar sua artilharia para o PT, Lula e Dilma", reconheceu um cacique partidário.

Até o momento, não surgiram os nomes dos bancos que compraram as informações privilegiadas que teriam sido vendidas por Mantega. Integrantes do mercado financeiro temem que sejam instituições grandes o suficiente para provocar abalos em um sistema, que ainda tem pouco crédito disponível para permitir a retomada do crescimento econômico. A antecipação do governo para autorizar o BC a fechar as leniências só aumenta a insegurança no setor. Procurada, a defesa de Mantega  não se manifestou.

Palocci e Mantega sempre mantiveram uma relação conflituosa. Responsável pela elaboração da Carta ao Povo Brasileiro que acalmou os mercados durante a eleição de 2002, Palocci, apesar de médico sanitarista, foi escolhido para ser o primeiro-ministro da Fazenda de Lula, em 2003. Mantega foi acomodado como ministro do Planejamento. Os dois tinham atritos constantes pela condução da política econômica, já que o primeiro era fiscalista e o segundo, desenvolvimentista.

Mantega se alinhava ao então chefe da Casa Civil, José Dirceu, para pressionar Palocci a afrouxar a política econômica, considerada extremamente recessiva, com aumentos nas taxas de juros e na meta de superavit primário. Em certo momento, quando Lula concordou em diminuir a pressão num dos pilares da economia, Palocci se recusou a assinar a medida provisória. "Vai ser melhor para você assinar do que explicar porque uma medida econômica foi adotada sem a assinatura do titular da Fazenda", ironizou Dirceu. Palocci foi obrigado a ceder.

BNDES

Quando Carlos Lessa cai da presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Palocci vê a oportunidade de livrar-se de Mantega. Na época, o BNDES estava ligado ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (Mdic) e Mantega foi deslocado para o Rio, após bate-bocas homéricos pelo telefone. Mantega e Dirceu achavam que Palocci não tinha capacidade para o cargo, atendia apenas aos interesses do mercado e só conseguia implementar medidas econômicas pela qualidade da equipe liberal que formou e pela competência do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles.

Na queda de Palocci, em 2006, abatido pelo escândalo do caseiro Francenildo Costa, Mantega vai à forra e faz uma limpa no gabinete de seus antecessores. Deixa apenas Bernard Appy, mas, ainda assim, isolado. O novo ministro da Fazenda não demonstrou nenhuma solidariedade com Palocci durante a crise política e pessoal, enterrou a proposta de reforma tributária e acelerou a implementação de políticas desenvolvimentistas, gérmens da nova matriz econômica implementada no primeiro mandato de Dilma Rousseff.

Ao longo da campanha presidencial de 2010, os dois se comportaram bem, como relataram, jocosamente, integrantes do PT. Já estava acertado que Palocci iria para a Casa Civil e Mantega surfava na política anticíclica que livrou o Brasil da crise econômica de 2008 e 2009. Agora, voltam a se encontrar - pelo menos na delação de Palocci. Procurado, Mantega não quis se pronunciar