Crise reduz em 50% as doações a entidades sociais da Capital

Publicado em 13/06/2016 por Correio do Estado

Nos últimos meses, pela primeira vez, o empresário Clodoaldo dos Santos, de 44 anos, precisou enxugar os gastos da empresa e, entre os cortes, que incluíram redução de 50% dos funcionários, ele teve de reduzir as doações constantes para a Associação dos Amigos das Crianças com Câncer (AACC). "Recentemente  eles reformaram parte dos banheiros e eu disse que só poderia ajudar vendendo os produtos pelo preço de custo. Se fosse há um ano, eu teria doado todo o material, mas do jeito que está, não consigo", justifica.

Assim como Clodoaldo, vários outros benfeitores assíduos precisaram incluir na planilha de corte de gastos mensais as doações não só para a AACC, mas para as demais instituições beneficentes de Campo Grande. A consequência é sentida no orçamento das entidades: queda de até metade das doações, seja em dinheiro ou produtos, nos últimos seis meses em comparação com o mesmo período do ano passado. O impacto da retração é grande, já que a verba oriunda de contribuições representa a maior parcela da receita das instituições - em alguns casos chega a 90% do montante. 

"Tem gente que pediu para dar um tempo, para cancelar a doação naquele mês. E 99,9% diz que é por conta da crise, é essa a palavra que se usa. A pessoa que doa R$ 10 por mês, por exemplo, se o salário não está mais dando, ele ao invés de doar claro que vai preferir pagar uma conta, comprar um alimento", frisa o gestor administrativo e financeiro da AACC, André Machado. A queda nas doações deste ano, comparando com o início de 2015, chegam a 40%. Por outro lado, cresceu o número de voluntários, mas esse também é um fator preocupante. "Aumentou a disponibilidade porque algumas pessoas estão desempregadas, mas isso é ruim porque é um voluntário temporário e a gente torce para ele voltar ao mercado. Além disso, esse seria um provável doador se estivesse trabalhando", explica. 

Na Associação Franciscanas Angelinas (Afrangel), que atende crianças de 0 a 12 anos com HIV/Aids ou que convivem com familiares soropositivo, as contribuições caíram até pela metade. "A gente vinha sentindo redução de doações em dinheiro desde o ano passado, mas neste ano percebemos uma queda grande também em alimentos e produtos de limpeza", avalia a assistente social, Juciele de Carvalho. Ela diz que os benfeitores justificam que estão com "falta de dinheiro e insegurança por conta do cenário político". 

No Centro Social Dom Bosco, que beneficia 125 crianças na creche e outras 30 no contra-turno escolar, além de 90 famílias, a redução na quantidade de alimentos também foi o que mais pesou nos últimos meses. "Acho que é por se tratar de um extra, algo que não é prioridade e talvez pese no orçamento da família", analisa o coordenador, Jean Lucy Toledo Vieira. 

Já o presidente do Cotolengo, padre Valdeci Marcolino, estima queda de cerca de 30% nas doações e conta que algumas pessoas explicam que neste momento não vão poder contribuir financeiramente, mas colocam à disposição outras formas de ajudar.  "Um doador falou: olha padre, no lugar de doar em espécie eu vou doar os meus serviços para vocês na parte mecânica. Ou seja, ofereceu a sua mão de obra para não deixar de ajudar", diz.

*A reportagem completa está na edição de hoje do jornal Correio do Estado.