Desafio é conter problemas fora de campo na Copa das Confederações

Publicado em 17/06/2017 por Folha de S. Paulo Online

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Há longa história relacionando grandes eventos esportivos a países em destaque na arena política. Nem sempre acaba bem, e a Copa do Mundo da Rússia é exemplo no qual sucesso e fracasso estarão lado a lado.

A Fifa deu a Copa aos russos em 2010, quando Vladimir Putin vivia auge político e dava as cartas na cadeira de premiê do governo de seu protegido Dmitri Medvedev.

Tendo trabalhado para restaurar a autoestima russa após o fim da União Soviética, Putin nadara os anos 2000 em cotações altas do petróleo que move a economia.

Acabara de flexionar seus músculos militares ao derrotar a Geórgia numa rápida guerra em 2008, destinada a afastar a influência ocidental de suas fronteiras.

Seu regime também já era acusado por violações de direitos humanos, mantendo a tradição de polêmica nas indicações de países-sedes.

Isso ocorre desde que Adolf Hitler transformou a liderança alemã nos Jogos de 1936 numa afirmação de superioridade racial, só para ser desautorizado na pista de atletismo pelo negro Jesse Owens e seus quatro ouros.

Quando a Fifa lhe agraciou, Putin já tinha no bolso a Olimpíada de Inverno de 2014, realizada com eficiência, mas manchada pela revelação de que atletas russos estavam envolvidos em esquema de doping.

Atualmente, se aproxima mais ao Brasil, que encaçapou Copa e Olimpíada e enfrentou crises subsequentes.

No caso brasileiro, um legado deficitário de estádios inúteis e investigações sobre propina e superfaturamento. Não parece disparatado ver nas arenas de Ekaterimburgo ou Saransk um destino semelhante ao da Arena Pantanal.

Putin passou a década sob desgaste externo. O conflito na Ucrânia, que lhe rende sanções desde 2014, a queda do preço do petróleo a partir de 2015 e o aumento do gasto militar configuram cenário que pode afastar turistas.

Mas é preciso relativizar isso. Com outros elementos (violência, miséria), dizia-se o mesmo da Copa no Brasil, e o resultado em termos de imagem foi positivo.

E essa é a oportunidade para Putin: realizar com sucesso e empatia o evento, mesmo que russos gostem tanto de futebol quanto de hóquei sobre o gelo, controlando hooligans e evitando a ação dos sempre presentes terroristas.

Ainda existe o risco doméstico. Há desinteresse no país. Putin enfrenta os maiores protestos desde 2012. As manifestações estão espraiadas pelo país, e com o caráter de movimento de juventude, impulsionado por redes sociais. Seu líder é um blogueiro chamado Alexei Navalni, preso na segunda-feira (12).

A Copa está distante um ano, então é imprevisível para que lado a balança penderá. Os problemas indicam que o Kremlin terá trabalho para colher os louros extracampo.