Documentário argentino revela a tragédia da produção da erva-mate

Publicado em 12/06/2017 por O Globo

RIO - Quem poderia imaginar que perto das famosas Cataratas do Iguaçu, há cinco anos escolhidas como uma das Sete Maravilhas da Natureza, esconde-se uma tragédia humana relacionada a uma das bebidas mais consumidas pelos argentinos. É o que mostra o documentário "Me gusta el mate sin trabajo infantil" ("Gosto de mate sem trabalho infantil"), que será apresentado no 64º Festival Internacional de Criatividade Cannes Lions, do próximo sábado (17) até o dia 24 de junho. O trabalho, comandado pelo criador da companhia multimídia Posibl, o argentino Martin Parlato, vai competir em duas categorias de impacto social e pode ser uma das surpresas do evento.

Em pouco mais de meia hora, o filme desconstrói a imagem da bebida que, junto ao tango e à carne, virou um símbolo dos argentinos no mundo. Tomar mate é uma quase religião no país. Mas a grande maioria dos súditos nem imagina que produzir a bebida nacional da Argentina implica escravizar 20 mil pessoas, incluindo crianças, que moram em condições paupérrimas na província de Misiones. Nessa belíssima região da Argentina turistas do mundo todo visitam as impactantes Cataratas, sem saber, como também desconhecem milhões de argentinos, que ali ao lado vive-se um verdadeiro pesadelo.

O drama dessas famílias foi acolhido, primeiro pela ONG Um Sonho para Misiones. Sua denúncia chegou às mãos da Posibl e, graças ao documentário, a exploração das famílias que trabalham na produção de mate está ganhando visibilidade. Segundo os produtores, entre exibições em locais públicos e reproduções na internet, a história já foi vista por mais de 60 milhões de pessoas.

- O objetivo de nossa companhia é unir forças e buscar soluções para problemas sociais. Queremos gerar uma agenda pública e privada, gerar ativismo e conectar a geração digital com eventos e conteúdos como este documentário - conta Parlato ao GLOBO.

Ele criou a Posibl há quatro anos com a missão de "empoderar líderes civis".

- Trabalhamos com mais de 400 ONGs em todo o mundo, queremos ser o motor de uma mudança - diz o diretor da companhia, que viu enorme potencial na situação de Misiones e decidiu ir até lá para filmar uma realidade que poucos conhecem. - Acho que o que mais vai comover Cannes é a contradição de encontrar crianças desnutridas, tratadas como escravos, a poucos minutos de carro dos hotéis de luxo das Cataratas.

O documentário é direto, mostra como vivem essas famílias, em casas de madeira, sem banheiros, sem água, com escassez de roupas e alimentos, dormindo no chão. Para sobreviver, elas trabalham sem qualquer tipo de segurança, sendo obrigadas a levar os filhos. As crianças acabam usadas na cadeia de produção e, em consequência, deixam de estudar.

É difícil não se comover até as lágrimas.

- O mate deveria representar o melhor dos argentinos, e acaba sendo o reflexo de uma indústria corrupta, que explora e trata seus trabalhadores da pior maneira possível. Isso precisa mudar - afirma Parlato.

O objetivo da companhia e da ONG de Misiones é que neste ano o Congresso argentino aprove uma lei que proteja essas famílias e que as empresas sejam obrigadas, por exemplo, a esclarecer, nos pacotes de sua erva-mate, se o produto foi realizado com trabalho infantil.

- O poder deve ser dos consumidores, eles devem poder castigar quem abusa de crianças - defende o diretor.

NO CONGRESSO ARGENTINO

O Congresso discutiu o drama de Misiones no ano passado, mas o projeto não foi adiante. Neste ano, a Posibl decidiu redobrar as pressões levando, também, sua denúncia a Cannes.

- Estas pessoas sonham com saúde e educação, sonham com direitos humanos básicos. Pedimos à sociedade que não ignore esta dor - diz Parlato.

Ele entrevistou mulheres, homens e crianças que sofrem com essa tragédia, em alguns casos desde seu nascimento. As ameaças são constantes, por parte de empresários do setor, e a pobreza é cada vez maior.

O documentário já foi prestigiado pelo Papa Francisco, que recebeu o diretor no Vaticano. O objetivo da Posibl agora é ampliar sua divulgação e obrigar as autoridades argentinas a adotarem medidas urgentes a favor dos trabalhadores de Misiones.

- Não queremos boicotar o mate, queremos apenas que ele seja uma bebida livre de trabalho infantil - pondera Parlato.