Doutor Carlos Vasconcelos - ?In memoriam?

Publicado em 17/06/2017 por O Estado do Maranhão

Doutor Carlos Vasconcelos - ?In memoriam?

Dizem que, em certas ocasiões, o cérebro humano é traiçoeiro. E o é, sem dúvida. Por conta dessa "traição", um dia desses me vi, de repente, naquela sala de aula do segundo andar. Era uma manhã chuvosa de março, eu tinha 11 anos de idade e lutava contra o desconforto do assento de madeira.

É esse o momento que me brota do fundo das lembranças quando conheci o dr. Carlos de Sousa Vasconcelos, na antiga Escola Técnica de São Luís, depois CEFET e hoje Instituto Federal de Ciência e Tecnologia do Maranhão - IFMA. Ele era o nosso professor de Ciências Físicas e Naturais.

Enfrentei, como todos os meus colegas daquela sala, muitas dificuldades para chegar até ali. É que a transição para o Secundário, depois da conclusão do Curso Primário, não era fácil: exigia-se que o estudante se submetesse a uma série de provas, chamadas Exame de Admissão, que naquela escola já recebiam a pomposa designação de Exames Vestibulares.

Eu estava encantado e assustado. Habituado às professoras de uma escolinha pobre de subúrbio, deparei-me ali com um homem de paletó e gravata, aspecto distinto, que nos falava de coisas estranhas chamadas moléculas e átomos.

São Luís era uma cidade pequena e pacata, os meios de transporte - como nos dias atuais - eram precários, e os deslocamentos da população aconteciam, para a maioria, de bonde ou em pequenos ônibus construídos artesanalmente de madeira. O professor Carlos Vasconcelos, porém, pertencia a outra categoria: sempre bem vestido, dirigia o seu próprio carro de fabricação norte-americana, um Studebaker grená. Estava, em termos sociais, culturais e econômicos a anos-luz de distância de todos nós, mas - talvez por ser médico - naquela sala descia ao nosso rés do chão e conosco conversava.

O tempo correu e o giro dos dias e noites nos manteve a curtas distâncias. Anos depois, quando a nossa turma iniciava o Curso Técnico (equivalente ao antigo Científico) ele foi o nosso professor de Química. Não nos dava sossego com seus ácidos e álcalis, e muitas vezes comparecia para as aulas trajando o inconfundível verde-oliva de oficial do Exército Brasileiro. Éramos adultos e o seu mundo, àquela altura, já não parecia tão distante do nosso.

Quando ingressei na Faculdade de Ciências Médicas do Maranhão, no início da década de 1960, - era a coqueluche entre as faculdades de São Luís, na época -, passei a merecer do Dr. Carlos Vasconcelos uma atenção não usual. A atitude cortês levava-o a reduzir a altura do seu pedestal e se aproximar do meu habitat. Dentre outras atenções, algumas vezes até parou o seu belo automóvel - não era mais o Studebaker - para me oferecer carona.

A última ocasião em que encontrei o fenomenal professor foi numa praça de São Luís. Estávamos a pé e, àquela altura já éramos, de fato, colegas. Pela primeira vez ele me falou de seus problemas. Problemas de saúde. O encontro foi rápido.

O dr. Carlos de Sousa Vasconcelos era pediatra, foi médico do SESI e, segundo a professora Maria de Lourdes Lacroix, tinha o curso da Escola Nacional de Educação Física da Universidade do Brasil. Chefiou, durante muito tempo, serviços ligados a educação física nas escolas estaduais e municipais do Maranhão. Foi, também, prefeito de São Luís. Existe, no bairro de São Cristóvão, uma avenida que leva o seu nome.

ALDIR PENHA COSTA FERREIRA

Médico, membro da Academia Vianense de Letras, da Academia Maranhense de Medicina e da Sociedade Maranhense de História da Medicina

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