Eleições mudam perspectivas para França e Reino Unido

Publicado em 16/06/2017 por Valor Online

Muitas vezes, a rapidez com que a sorte de um país pode mudar é subestimada. Em 2004, a Alemanha era considerada um país enfermo. Após cinco anos e algumas reformas no mercado de trabalho, passou a ser a potência econômica da Europa. Há quatro anos, a Espanha foi considerada um caso perdido, a um passo do colapso econômico e da saída do euro. Porém, desde meados de 2013, o país cresceu cerca de 3% ao ano e criou dois milhões de empregos. Isso aponta para um segundo aspecto das reviravoltas econômicas: raramente são óbvias, mesmo para os economistas, formuladores de políticas e especialistas remunerados para detectar tais coisas. É famoso o caso em que 364 respeitados economistas - entre eles Mervyn King, que mais tarde tornou-se presidente do banco central britânico - escreveram ao "Times", em 1981, para alertar que as políticas da premiê Margaret Thatcher estavam condenadas ao fracasso. Mas a história mostra que a recuperação do Reino Unido começou quase exatamente naquele momento, e cinco anos depois, sua economia estava crescendo. Considere essa imprevisibilidade ao analisarmos o cenário econômico europeu atual. À época da votação sobre o Brexit, no ano passado, era aceito por muita gente no Reino Unido que a França era um dos favoritos ao indesejado rótulo de "enfermo", em uma supostamente condenada zona do euro; o Reino Unido, ao contrário, era a economia mais dinâmica da Europa, precisando apenas se desatar do cadáver continental para aproveitar as oportunidades em um mundo globalizado. No entanto, na esteira de resultados muito distintos das eleições deste mês na França e no Reino Unido, as expectativas foram efetivamente revertidas. O pessimismo em relação à França sempre foi exagerado. A economia francesa tem alguns pontos fortes que o Reino Unido só pode invejar, como uma crescente população nativa em idade economicamente ativa e produtividade elevada: o trabalhador francês médio produz em quatro dias o que um trabalhador britânico produz em cinco, segundo dados oficiais do Reino Unido. O problema, na França, está centrado em leis trabalhistas rígidas e impostos elevados, particularmente sobre as empresas, que impedem investimentos e contratações, produzindo níveis elevados de desemprego. O governo anterior, de François Hollande, deu alguns passos modestos para enfrentar esses problemas. Agora, o presidente Emmanuel Macron propõe ir mais longe, com planos para reduzir os impostos sobre empresas, limitar os custos de demissão de empregados e facilitar a fixação dos salários em nível de empresas, e não nacional. Macron foi sistematicamente subestimado. Primeiro, os céticos disseram que ele não conquistaria a Presidência; depois, que ele não conseguiria a maioria parlamentar. Agora que ele parece prestes a obter uma vitória avassaladora no segundo turno das eleições parlamentares, no domingo, eles dizem que suas reformas serão derrotadas pelos sindicatos nas ruas. Claro que esse é um risco, mas Macron tem um forte mandato e um histórico de reformas. Uma análise de reformas similares em outros países sugere que, se ele for bem sucedido, seus planos poderão dar impulso à taxa de crescimento anual potencial da França, de seus atuais 1% a 1,5%, nos próximos cinco anos, estima Gilles Moec, economista-chefe do Bank of America Merrill Lynch para a Europa. Considerando uma forte recuperação cíclica e excesso de capacidade ociosa, a França poderá facilmente crescer bem acima do potencial nos próximos anos. Em contraste, o cenário no Reino Unido nunca fora tão róseo como se afirmava. O recente forte crescimento econômico foi em grande parte impulsionado pela imigração e pelo investimento estrangeiro direto, ambos colocados em dúvida pelo Brexit. O governo conservador quer reduzir a imigração para menos de 100 mil por ano em cinco anos, ao passo que os planos do Brexit exigem que o Reino Unido abandone o mercado único e a união aduaneira da União Europeia (UE), o que resultará em novos obstáculos ao comércio com o bloco e perturbações nas cadeias de suprimentos. De fato, os impactos negativos do Brexit já aparecem na economia. Os gastos dos consumidores, que impulsionaram a economia após o plebiscito, estão estagnados, com a inflação mais alta causada pela queda da libra provocando reduzindo os padrões de vida. O lucro médio caiu 0,6% em termos reais anuais nos três meses até abril; o crescimento desacelerou para 0,2% no primeiro trimestre, e os indicadores apontam um resultado semelhante para o segundo. Isso se compara a um crescimento, no primeiro trimestre, de 0,4% na França e de 0,6% na zona do euro como um todo. Agora, as eleições no Reino Unido criaram novos riscos políticos. Cresceram muito as chances de um Brexit caótico, seja porque o Reino Unido não conseguiu chegar a um acordo com Bruxelas ou é incapaz de implementar os arranjos necessários para garantir que as empresas possam continuar negociando. O Reino Unido agora também tem um governo fraco e qualquer crise política poderá dar o poder a um Partido Trabalhista de esquerda liderado por Jeremy Corbyn, cujo plano de reestatização e tributação provavelmente esfriará o ânimo dos investidores. Enquanto isso, o maior trunfo britânico - sua flexibilidade monetária - pode se tornar uma fraqueza, à medida que decisões difíceis são evitadas, em favor de desvalorizações periódicas típicas da Itália no período pré-euro, diz Ian Harnett, economista-chefe da Absolute Strategy Research. Isso poderá levar os investidores a exigir prêmios maiores para manter sua exposição a ativos britânicos. O triunfalismo do ano passado em relação ao Brexit agora parece uma atitude arrogante. Num prazo de cinco anos, é razoavelmente provável que a França se torne a nova potência europeia. O desafio, para o Reino Unido, é evitar se tornar o novo doente europeu.