Em Dot, aos 88, a força do feminino

Publicado em 10/03/2017 por Maria Bitarello

Caminha com vigor. Viaja e acampa há seis décadas. Arriscou o pescoço por uma floresta. Tem tataranetos, mas já não recomenda a maternidade. Preferiria ter vivido com uma mulher

Semana passada fui à ocupação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) na Av. Paulista e fotografei algumas mulheres dali, uma ideia que venho trabalhando (falei sobre isso nesse texto). Uma delas, que não quis ter sua foto tirada, me perguntou porque eu só fotografava mulheres. Respondi que os homens já ocupam muito espaço, em todas as esferas. Ela esboçou um princípio de sorriso, triste. “É. Quem toca a vida são as mulheres mesmo”. Concordei com a cabeça e imediatamente lembrei-me do que me disseram certa vez: “você só pode ter sido criada por um matriarcado. Tem uma força aí que é do feminino”.

É verdade. Fui criada, inspirada, motivada, guiada, moldada por várias mulheres, não só por minha mãe. Tenho inclusive dois pais, mas minha família é completamente matriarcal, orbitando ao redor da figura centrípeta da minha avó, hoje com quase 88 anos. As mulheres desse clã mineiro sempre me transmitiram uma segurança terrena, um pilar que nasce lá no fundo da terra. Mulheres são ponta firme; mulheres seguram a onda e fazem o barco tocar pra frente. Nunca senti dentro da nossa tribo que se esperasse menos de mim, ou de qualquer uma de nós, porque somos mulheres. Muito pelo contrário. As incertezas vinham era dos homens, com quem nem sempre se podia contar. Ali, quem toma todo o espaço somos nós. E nós somos numerosas. Assertivas. Todas parecidas, filhas de irmãs gêmeas.

No final de 2014, viajei pelo Nepal com um grupo de escritores, e dentre eles havia Dot Fisher-Smith (veja a série de retratos aqui). Essa americana, na época com 86 anos, foi minha parceira mais animada de trilhas e aventuras. Dot caminha com o vigor e a firmeza de uma menina, do alto de sua pequena estatura. Carrega sua própria mochila de acampamento nas costas, detesta ser paparicada, tem a pele toda enrugada e um olhar inescapável. A história não gosta que se chame mulheres de geniais ou brilhantes, mas se Dot não for iluminada no sentido budista, está quase lá. Ela já viveu toda uma vida e segue entusiasmadíssima (clique aqui pra ouvir um podcast em inglês que fiz com ela). E enquanto escrevo esse texto, ela está viajando pelo Deserto do Saara de jipe. Juro.

Dot nasceu em 1928. Foi monja zen-budista por anos; ativista ambiental, é até hoje. Posou pelada na capa de uma revista quando já tinha mais de 80 anos. Acorrentou o próprio pescoço a uma escavadeira pra impedir a devastação de uma floresta ameaçada, próxima à região em que vive, no estado do Oregon, nos Estados Unidos. Atravessou o país de carro com o filho e a filha pequenos pra fugir do primeiro marido, com quem morou em diferentes países, inclusive no Irã. O filho já se foi. Ela se casou de novo. Hoje tem netos, bisnetos e até tataranetos, mas não apresenta nenhum embaraço visível em dizer que não recomenda a maternidade, que a vida já é uma jornada incrível o bastante por si só e que ela mal dá conta de si mesma.; que acredita não ter sido uma boa mãe e que, se soubesse na época o que sabe hoje, não teria tido filhos. E também que preferia ter passado sua vida ao lado de uma mulher, não de um homem.

É viajante praticante há mais de 60 anos e viaja sozinha até hoje. Com quase 80 anos, completou uma volta em torno do Monte Kailash, na região de Ladaque, na Caxemira, cobrindo três dias de trilhas e dormindo ao relento, no alto dos Himalaias. Continua acampando, todos os verões, nas montanhas da Califórnia. Mas, como ela mesma diz, agora tem preguiça de ficar três meses sozinha por sua própria conta no mato, carregando tudo que precisa e colhendo frutas, como costumava fazer até os 70 e tantos anos. Ela se declara uma caçadora-coletora, uma primitiva, terrena. Hoje, limita-se a acampar por uma ou duas semanas com a neta de 20 e poucos anos que divide o peso dos mantimentos e das barracas com ela. Se alonga todos os dias, fica pelada com naturalidade infantil, tem um arsenal de poesias memorizadas na íntegra, desloca-se de bicicleta por Ashland, onde vive, até no verão de mais de 40oC e pinta grandes telas em seu ateliê caseiro.

Se morasse aqui, decerto estaria acampada, ocupando a Paulista com as outras mulheres que fotografei. Dot tem alma sertaneja. É o centro de sua tribo matriarcal. Só de pensar nela no meio do deserto africano um sorriso se abre, irresistível, em meu rosto aqui em São Paulo. Depois dela, envelhecer ganhou outra textura pra mim, como os sulcos em seu rosto. As linhas do possível se borraram. Outra fome de vida me invadiu; uma nova e libertadora sede de ser mulher como eu bem entender. O feminino confirmou-se uma força.