Em viagem à Rússia, Temer busca garantir mercado para carnes

Publicado em 19/06/2017 por O Globo

No varejo. Venda de embutidos na cidade de Naberejnye Chelny. Das importações de carne da Rússia, 60% são do Brasil - Andrey Rudakov / Bloomberg

BRASÍLIA - O risco de o Brasil ter problemas com um dos maiores importadores de carnes do mundo foi uma das razões pelas quais o presidente Michel Temer decidiu se ausentar do país por alguns dias e deixar em seu lugar o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Com embarque previsto para esta segunda-feira com destino a Moscou, Temer sairá do epicentro da profunda crise política da qual é protagonista, iniciada pela delação do dono da JBS, Joesley Batista, para tentar convencer o presidente da Rússia, Vladimir Putin, que a produção brasileira de carnes e derivados continua passando por um sistema de controle sanitário confiável.

Além de Putin, Temer será recebido pelo primeiro-ministro Dmitry Medvedev e por investidores, para defender o aumento do comércio bilateral com a Rússia que, de 2011 a 2016, teve uma queda de mais de 40%. No período, as exportações brasileiras para o país, que somavam US$ 4,216 bilhões em 2011, caíram 45%, para US$ 2,299 bilhões. Se o Brasil quer continuar vendendo carnes aos russos, estes dirão estar interessados em vender mais trigo, pescados e alguns cortes de carne bovina para o mercado brasileiro.

Dados oficiais mostram que 60% das importações de carnes pela Rússia são provenientes do Brasil. Autoridades e empresários brasileiros temem que o humor da União Europeia (UE) possa contaminar Moscou. Na semana passada, o bloco europeu avisou que poderá suspender a importação de carnes brasileiras, por causa das dúvidas que ainda persistem em relação à Operação Carne Fraca da Polícia Federal, que revelou irregularidades cometidas por frigoríficos do país, incluindo unidades fornecedoras da JBS, de Joesley Batista. A UE já deu o primeiro passo embargando compras de carne de cavalo do Brasil e exigiu uma fiscalização maior, principalmente nos embarques de aves.

- Não podemos permitir que questões comerciais sejam colocadas acima de questões sanitárias. Temos total segurança do que fazemos. Nenhum produto coloca em risco a saúde das pessoas - disse ao GLOBO o secretário-executivo do Ministério da Agricultura, Eumar Novack, que garantiu que todas as indagações da UE serão respondidas pelo governo brasileiro até o fim deste mês.

Novack liderou, recentemente, uma comitiva do Ministério a Moscou. Ficou acertado que um dos temas mais fortes do encontro desta semana será no sentido de o Brasil retomar o espaço que perdeu no mercado russo. Os dois países têm a meta de um intercâmbio bilateral de US$ 10 bilhões anuais. Porém, o fluxo comercial, no ano passado, foi de US$ 4,2 bilhões.

- A ida do presidente Michel Temer à Rússia será mais um gesto ao governo russo de que o aumento do comércio com aquele país é muito importante para o Brasil - diz Novack.

O presidente vai aproveitar para fazer propaganda de seu novo programa de concessões. Um dos destaques é a conclusão das obras da Ferrovia Norte-Sul. Também está previsto um acordo para evitar a bitributação. Para isso, acompanhará Temer na viagem o secretário da Receita Federal, Jorge Rachid.

Na quinta-feira, Temer sairá de Moscou em direção a Oslo, na Noruega - país que foi o oitavo maior investidor no Brasil em 2016, com US$ 2,1 bilhões. Os recursos foram aplicados, principalmente, nos setores marítimo, de petróleo e gás. Mais de 110 das 150 empresas norueguesas no Brasil são dessas áreas. Temer se encontrará com o rei Harald V, a primeira-ministra Erna Solberg e investidores. Vai reafirmar o interesse no acordo de livre comércio entre o Mercosul e a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA), que inclui também Suíça, Islândia e Liechtenstein.

NA NORUEGA, MEIO AMBIENTE

O governo brasileiro vai buscar ainda parcerias em assuntos ambientais, com a presença do ministro da pasta, Sarney Filho. A Noruega já aportou ao Fundo Amazônia R$ 2,8 bilhões desde 2009.

Nas primeiras horas como presidente efetivado, em 31 de agosto de 2016, com o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, Temer viajou à China para a cúpula do G20. Nos últimos quatro meses do ano passado, a agenda de viagens foi intensa: foi aos Estados Unidos, para a Assembleia Geral da ONU; Paraguai e Argentina, para reuniões bilaterais; e haveria uma viagem à Colômbia, com vistas a acompanhar o acordo de paz entre o governo colombiano e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), mas a ida foi cancelada de última hora.

Neste ano, em mais de seis meses, só houve uma viagem internacional: a Portugal em janeiro, para o velório do ex-presidente luso Mário Soares. Em meio à pior crise política do governo e às vésperas de ser denunciado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) ao Supremo Tribunal Federal (STF), em investigação por corrupção passiva, organização criminosa e obstrução de Justiça, Temer demorou a confirmar as viagens para Rússia e Noruega. A denúncia contra o presidente seria oferecida nesta segunda-feira, enquanto Temer estaria no exterior, mas a PGR deve adiá-la.

No mês que vem, o Palácio do Planalto tem no radar três viagens: no dia 7, para a Alemanha, por ocasião do G20; logo depois, para a Colômbia; e no fim de julho, para a Argentina, onde haverá reunião do Mercosul. Em setembro, a previsão é que Michel Temer se desloque para a China, a fim de participar de reunião do Brics, e para os Estados Unidos, onde acontecerá a Assembleia Geral da ONU.