Encontrando o artista conceitual dos livros de história da arte

Publicado em 18/06/2017 por Folha de S. Paulo Online

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Conhecemos Guilherme Vaz durante a 7ª Bienal do Mercosul, em 2009. Já tínhamos ouvido falar dele pelos livros de história da arte -que o abordam de forma lateral-, e a curiosidade de conhecê-lo pessoalmente era grande. Mas, por algum motivo, chegamos depois de sua apresentação no Museu de Arte do Rio Grande do Sul naquele dia.

Fomos apresentados a ele já nas escadas do museu, onde nos convidou para tomar um café do outro lado da praça da Alfândega. Ali, a afinidade foi tamanha que voltamos ao museu, e ele ligou novamente os equipamentos para que pudéssemos experimentar o trabalho.

Era a performance "Crude", uma versão amplificada de "Cru" (apresentada por Guilherme na 8ª Bienal de Paris, em 1973), em que ele tirava sons da arquitetura do edifício com seu corpo.

Nessa nova versão, ele distribuiu folhas de papelão, cartolina, lixas etc. pelas paredes do hall de entrada do museu e, por trás de cada folha, inseriu um microfone de contato que captava os sons, agora amplificados e difundidos no espaço.

O que se estabeleceu, a partir de então, foi uma troca afetiva, também como possibilidade de se deixar afetar.

Teve início uma intensa troca de e-mails, nos quais apresentávamos nossos trabalhos respectivos e discorríamos sobre questões diversas. Ali percebemos a escala de sua pesquisa. Ficou evidente o caráter inventivo e transgressor daquele artista.

Foi fundamental conhecer seu embate com o construtivismo brasileiro, que ele afirma ter sido importado da Europa, e sua proposta de "reconsiderar a geometria indígena e sertanista", assim como seu conceito de "esférico", por meio do qual ele sustenta que "a curva é social e includente", o que desloca a questão estética para o campo das relações sociais.

Acervo Pessoal
O artista Guilherme Vaz (sentado) com os curadores Franz Manata (à esq.) e Saulo Laudares (agachado)
O artista Guilherme Vaz (sentado) com os curadores Franz Manata (à esq.) e Saulo Laudares (agachado)

A certa altura, decidimos convidá-lo para uma entrevista, na qual ele apresentaria sua trajetória, ilustrada por seus trabalhos em áudio. O encontro rendeu mais de cinco horas de gravação, que foram editadas em uma hora de programa, disponível para ouvir e baixar no site do Arte Sonora.

Apesar de reconhecido nos circuitos intelectuais (ele é um dos fundadores da arte conceitual no Brasil, tendo participado de importantes mostras, incluindo a "Information", no MoMA, em Nova York, em 1970), Guilherme era quase invisível no plano da cultura brasileira.

Poucos conheciam a amplitude de sua pesquisa, e essa poderia facilmente se perder, pois seu acervo estava caótico, embora preservasse o necessário para reconstituir os passos do artista.

Durante o trabalho a partir do baú dele, encontramos vários tesouros, como a primeira partitura de música concreta do cinema brasileiro, feita para "Fome de Amor", de Nelson Pereira dos Santos, premiado no Festival de Brasília de 1968.

Recentemente, Guilherme teve complicações devido ao diabetes e sofreu um AVC, que afetou parte de sua memória. Por sorte, seu pensamento artístico está preservado.

Só foi possível catalogar, tratar e tornar pública sua obra graças à confiança que o artista e sua família depositaram em nós. Foi um privilégio reconstruir parte do percurso desse autor arredio, que agora se apresenta como um dos nossos maiores artistas.

Com uma obra fascinante, produzida com coerência e ética únicas, Guilherme certamente fornece algumas das ferramentas fundamentais para nos ajudar a compreender o papel de um artista neste século.

Nota: A exposição "Guilherme Vaz | Uma Fração do Infinito" está em cartaz no Sesc Pompeia, em São Paulo, até 6/8.

FRANZ MANATA, 53, é artista e curador independente.

SAULO LAUDARES, 41, é artista, DJ e produtor.