Febre na gravidez pode aumentar risco de autismo

Publicado em 13/06/2017 por O Globo

RIO - Febre durante a gravidez pode aumentar o risco do desenvolvimento de Transtorno do Espectro Autista (TEA) na criança, indica um estudo liderado por cientistas do Centro de Infecção e Imunidade (CII) da Escola Mailman de Saúde Pública da Universidade de Colúmbia, EUA. De acordo com a pesquisa, o efeito da febre foi mais pronunciado no segundo trimestre, elevando as probabilidades de TEA em 40%. Já os filhos de mulheres que relataram três ou mais episódios de febre após a décima segunda semana de gravidez tiveram um risco de autismo aumentado em mais de 300%.

O estudo é o mais robusto até agora a explorar o risco de autismo associado a febres em toda a extensão da gravidez e da capacidade de dois tipos diferentes de medicamentos antifebre comumente utilizados - paracetamol e ibuprofeno - para lidar com esse risco. Os riscos foram minimamente mitigados entre os filhos de mulheres que tomaram acetaminofeno para a febre no segundo trimestre. Embora não tenham havido casos de TEA entre crianças de mães que tomaram ibuprofeno, uma droga anti-inflamatória não esteroide, os pesquisadores não puderam verificar se o risco foi mitigado devido ao número extremamente pequeno de mulheres que usam esse medicamento em particular para a febre. Os resultados do estudo aparecem nesta terça-feira no periódico científico "Molecular Psychiatry".

No estudo, os pesquisadores acompanharam 95.754 crianças nascidas entre 1999 e 2009, incluindo 583 casos de TEA identificados na Noruega por meio do estudo Autism Birth Cohort (ABC). As mães de 15.701 destas crianças (16%) relataram febre em um ou mais intervalos de quatro semanas durante a gravidez, semelhante às taxas relatadas nos EUA. O risco de autismo cresceu em 34% quando as mães relataram febre em qualquer momento durante a gravidez, e em 40% no segundo trimestre. O risco aumentou de forma dependente de 1,3 vez com um ou dois episódios de febre após a décima segunda semana pré-natal a 3,12 vezes com três ou mais episódios.

- Nossos resultados sugerem um papel para a infecção materna gestacional e respostas imunológicas inatas à infecção no início de pelo menos alguns casos de transtornos do espectro autista - diz Mady Hornig, primeira autora do estudo, professora de Epidemiologia e diretora de Pesquisa Translacional no CII.

A análise dos questionários não indicou associação entre risco e sintomas de infecção relatados pelas mães com sistemas de órgãos individuais que possam implicar agentes infecciosos específicos. Um estudo em andamento está testando amostras de sangue coletadas durante a gravidez e no nascimento para explorar o possível papel de agentes infecciosos específicos e a contribuição de padrões distintivos de resposta imune entre mães e crianças para entender os mecanismos que criam a maior vulnerabilidade ao autismo.

- O trabalho futuro deve se focar na identificação e prevenção de infecções pré-natais e respostas inflamatórias que podem contribuir para os transtornos do espectro autista - diz o autor principal do estudo, W. Ian Lipkin, também professor de Epidemiologia e diretor do CII.