Filme de Leandra Leal contempla nuances da vida de artistas travestis

Publicado em 18/06/2017 por Folha de S. Paulo Online

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DIVINAS DIVAS (muito bom)
DIREÇÃO Leandra Leal
PRODUÇÃO Brasil, 2016, 14 anos
ELENCO Rogéria, Jane Di Castro, Divina Valéria, Camille K, Fujika de Halliday, Eloína dos Leopardos, Marquesa e Brigitte de Búzios
QUANDO: estreia na quinta (22)

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Adriano Vizoni/Folhapress
Leandra Leal na pré-estreia de Divinas Divas em SP, na terça (13)
Leandra Leal na pré-estreia de Divinas Divas em SP, na terça (13)

Dirigido por Leandra Leal, "Divinas Divas" é um documentário sobre travestis que passaram maus bocados para se firmar como artistas no Rio dos anos 1960. Uma delas conta no filme ter sido internada em um manicômio pela família, outras falam da violência policial.

Essa é parte da verdade, mas a menor delas. Em sua estreia como cineasta, Leandra evita enveredar pela via da piedade, embora não desconsidere a aridez do cotidiano das travestis. Assim como a maquiagem em cena inicial, com tons que se sobrepõem, são muitas as nuances a contemplar.

"Divinas Divas" é, sobretudo, um filme sobre cantoras talentosas que exerceram papel pioneiro na cultura brasileira. Rogéria, Brigitte de Búzios, Marquesa, entre outras, formaram a primeira geração de artistas travestis, que começaram a fazer sucesso na década de 1960.

Divulgação
Marquesa, que morreu em 2015, aos 71 anos, em cena de Divinas Divas
Marquesa, que morreu em 2015, aos 71 anos, em cena de Divinas Divas

CIRCUITO TEATRAL

Cantando em português, espanhol, inglês ou francês, nomes como Jane Di Castro se apresentavam de terça a domingo nos teatros cariocas, com até três sessões por dia. Um dos principais palcos para esses espetáculos era o Rival, à época comandado pelo produtor cultural Américo Leal, avô de Leandra (ainda em atividade, o Rival é conduzido hoje por Leandra e por sua mãe, a também atriz Ângela Leal).

Quando criança, a atriz-diretora conviveu no camarim do teatro com algumas das artistas que agora retrata. O filme delineia a história de Leandra, mas ela se comporta como uma coadjuvante respeitosa, lançando mão de intervenções pontuais.

O documentário se concentra mesmo nas performances e lembranças de artistas como Divina Valéria, Camille K e Eloína dos Leopardos, que exibem talento vocal, carisma e sensualidade, qualidades que souberam preservar ao longo do tempo.

É o tempo, aliás, que só faz bem a Leandra. Aos 34 anos, ela deixa de ser "apenas" uma das melhores atrizes de sua geração para se tornar também uma cineasta promissora. "Divinas Divas" é um dos grandes filmes brasileiros da temporada.