Frustração com governo escancara desinteresse dos russos pela Copa das Confederações

Publicado em 19/06/2017 por O Globo

MOSCOU - Vladimir Putin deu entrevista a Oliver Stone, conversou com Pelé na abertura da Copa das Confederações e tenta virar figura pop usando o futebol e o cinema. Dentro de casa, no entanto, sua imagem está tão empoeirada quanto as ruas de Moscou, às voltas com dezenas de obras. A juventude já disse basta na última semana, durante os protestos, e nem sua postura de celebridade internacional deve ajudar a fazer a cabeça da geração dos millennials - nascidos entre a década de 80 e os anos 2000. Boa parte deles jamais viu, em sua fase adulta, outro presidente no poder e tampouco uma competição como esta da Fifa, que ainda não empolgou os moscovitas.

LEIA TAMBÉM: Por segurança, torcedor de Camarões é impedido de usar máscara em estádio

O sentimento de mudança chegou tão rápido a esta geração quanto a velocidade com a qual Roman Amirdzhanov, 24 anos, empregado do setor hoteleiro, vai navegando com o polegar pela página do blogueiro e ativista político Alexei Navalny. Única voz a falar mais alto contra Putin, ele foi preso na última segunda-feira por trinta dias (quase duas mil pessoas foram detidas). Foi retirado de cena enquanto a bola rolar e o mundo prestar mais atenção na Rússia. Com os olhos nas telas e fechados para a mídia tradicional, Roman clama por mudança e condena a tentativa de Putin pegar carona na Copa das Confederações no momento em que o país afunda na corrupção.

- Nós, os mais jovens, não concordamos com as coisas que estão acontecendo no país. E não será o futebol que mudará isto - declarou Roman, fluente em inglês e espanhol.

Quando vai mostrando as notícias recentes, Roman fica escandalizado e dá razão aos manifestantes que foram às ruas no Dia da Rússia, ainda que condene a tática "black bloc" de alguns deles. Ele pergunta:

- Como não ficar indignado com o fato de vice do primeiro ministro, Igor Ivanovich Shuvalov ser acusado de usar um jato somente para transportar seu cachorro, com um custo de 40 mil rublos por viagem?

Para, em seguida, completar.

- Há muita corrupção no governo, e, ao que tudo indica, na organização destes eventos (Copas da Confederação e do Mundo) também. Sabemos porque, agora, temos mais canais de informação. São coisas pelas quais o Brasil passou recentemente e que sempre achamos que seria mais comum em países da América do Sul. Por isso, não estamos ligando muito para futebol neste momento.

Caminhões militares apoiam a segurança na Rússia durante a Copa das Confederações: vigilância intensa - Gian Amato

Para Svetlana Lashtabega, uma consultora de riscos que presta serviço para empresas, a Rússia ganhou as manchetes mundiais nos últimos tempos pelos motivos errados. E, mais uma vez, às vésperas de um grande evento, ela ressalta que o governo demonstra intolerância em seu viés autoritário ao prender, entre os manifestantes, centenas de crianças. É um sinal para tentar controlas as massas durante o evento Fifa.

- Eu adoro o meu país, detesto o governo - disse Svetlana:

- Tem que protestar, sim - completou, lembrando que desde os anos 1990 os russos não iam às ruas em massa.

Natural da Sibéria, onde convivia com hábitos machistas seculares, Svetlana ressalta que boa parte do país ainda vê em Putin, no poder desde 2000, e mais candidato que nunca em 2018 (ano da Copa do Mundo), devido aos seus mais de 80% de aprovação, a personificação de um líder autocrata que a Rússia sempre teve, desde a época dos czares.

- A Rússia é um país machista que ainda vive à sombra do autoritarismo personificado em uma pessoa. E o futebol é perfeito para isso, não? Veremos se conseguirá chamar atenção.

FUTEBOL DE LADO

Em um domingo de sol e calor e Moscou, o futebol, de fato, foi deixado em segundo plano por boa parte da população (apenas Rússia x Portugal, na quarta-feira, teve ingressos esgotados). Nas partes mais turísticas, como nas proximidades da lotada Praça Vermelha, um ou outro visitante parava para tirar fotos no relógio que conta os dias para a Copa do Mundo. Por muitas vezes o local ficou vazio. Empolgação com o jogo, só perto do estádio, distante do centro.

Voluntários da Copa das Confederações ficam com pouco trabalho em Moscou: desinteresse pelo futebol - Gian Amato/O Globo

Os já famosos voluntários da Copa das Confederações estavam espalhados por toda Moscou, mas nem tiveram muito trabalho com a falta de interesse do público em geral para pedir informações.

A linha de metrô que vai para o estádio do Spartak, onde Camarões e Chile fizeram a primeira partida na cidade, foi simpática com o mundo e pôs a locutora para falar em inglês, além de sinalizar com placas no idioma o caminho até lá. Como cortesia, o metrô, que funcionou bem, não cobrará passagens para os torcedores portadores dos bilhetes em jogos na cidade.

Diante dos recentes atentados terroristas na Europa, a segurança está reforçada na cidade. Em locais estratégicos, como estações de metrô, parques e pontos de muita aglomeração, policiais da cidade e soldados do exército fazem patrulhamento ostensivo.

VIGILÂNCIA RIGOROSA

Na entrada do estádio, assim como na chegada de turistas no aeroporto Domodedovo, a revista foi minuciosa. Computadores e telefones tiveram que ser ligados, enquanto até mesmos os tênis tinham que ser tirados, em alguns casos. Pessoas com comportamento suspeito em Domodedovo eram levadas para revistas longe da área da checagem de passaportes.

Inaugurado há menos de três anos, o estádio do Spartak terá papel secundário na Copa do Mundo. Muito provavelmente a abertura e a final serão realizadas no lendário estádio Lujniki (Ex-Lenin), onde o mundo viu o urso Misha chorar e chorou junto com o mascote no encerramento dos Jogos Olímpicos de 1980. O comitê organizador garante que o Lujniki está pronto, mas somente quatro dos 12 estádios foram entregues. Os demais seguem em obra.

Assim como Moscou. Na principal rua, a Tverskaya, o trânsito comumente complicado ficou ainda pior com as intervenções nos dois lados da via. Também há obras em andamento nas proximidades da Catedral de Cristo Salvador, o que requereu paciência de torcedores, turistas e moradores.

- Mas, apesar de tudo, as pessoas vão gostar da Rússia. É preciso sentir o cheiro, o clima, as pessoas. Não somos apenas um rosto - disse Svetlana.