Geová Rodrigues lança coleção de peças customizadas de grifes renomadas

Publicado em 17/06/2017 por O Globo

Geová Rodrigues e a atriz Emily Allan, em Nova York - Tiago Chediak

RIO - A ideia inicial era fazer um retrato do estilista potiguar Geová Rodrigues, 52, na Williamsburg Bridge, em cima de sua bicicleta, para ilustrar esta reportagem. "É o meu carro em Nova York, onde moro. Faço tudo com ela", observou o designer. Horas depois de acertamos como seria a foto, ele telefona com uma nova proposta: queria ser clicado em Manhattan ao lado da atriz Emily Allan, customizando um look. "Tem mais a ver com a minha trajetória", argumentou. De fato. Na quinta-feira, ele estará na loja da UMA, no Leblon, apresentando a coleção Re-design art. São 30 peças de outras marcas (Gucci, Dries Van Noten, Giorgio Armani, Vivienne Westwood, Moncler, Comme des Garçons...) retrabalhadas por Geová.

- São coisas do meu acervo e outras que consegui em brechós. Garimpei mesmo - comenta o estilista.

Resolvida a questão do portrait, ele engatou um papo animado sobre moda e vida. Como dizem por aí: senta que lá vem história.

Se nada mudar em seu roteiro, Geová desembarca no Rio na quarta-feira. Ele conta que trará na bagagem de mão o passaporte brasileiro e o americano, que conseguiu em março do ano passado.

- Sou americano duas vezes: do norte e do sul - diverte-se. - Tive que cantar o hino dos Estados Unidos para virar cidadão. Agora pergunta se eu sabia a letra? Fiquei no meio dos chineses e dos coreanos só enrolando. E tremi na hora de escrever George Washington na avaliação. Fiquei na dúvida se era com um "s" ou dois. No fim, deu certo. Graças a Deus. No total, estou aqui há 27 anos.

ACREDITO NO TALENTO

A modelo Renata Scheffer posa com peças customizadas por Geová - Tiago Chediak

A porta de entrada de Geová no país foi Nova York, em 1990, após uma passagem por Paris. Mas ele não gostou muito da Big Apple e partiu para a Carolina do Norte. Três anos depois, estava de volta à cidade. Foi amor à segunda vista. Lá, descobriu uma nova profissão e renasceu. Artista sem formação acadêmica ("Nunca tive carteira assinada e diploma. Acredito no talento, na sorte e na inspiração"), o potiguar foi aos poucos se envolvendo com o mundo da moda. Conheceu fotógrafos, editores e chegou a trabalhar como stylist.

- Até que um dia achei uns tecidos na rua enquanto produzia um editorial. Troquei um dos meus quadros por uma máquina de costura. Foi assim que dei o pontapé. Mas você precisava ver minhas roupas. As costas eram na frente, ficavam uns objetos pendurados. Vendi um vestido para uma amiga da atriz Chloë Sevigny e a menina ficou com a bunda de fora por um erro técnico. Hoje estou melhor. Faço um acabamento primoroso. Mas também estou no ramo há quase duas décadas. Se ainda não soubesse fazer...

A primeira coleção de Geová foi lançada em outubro de 1998. Os looks foram construídos com materiais encontrados no lixo. Ou seja: ele sempre teve o pé na sustentabilidade, tema urgente na atual agenda fashionista. Bom de papo, o estilista fez amizade com os porteiros dos escritórios das grandes grifes, que separavam as sobras de pano para o brasileiro:

- Passava na rua 45 e comprava coxinha para eles. Ganhei o povo pela barriga. Donna Karan, Calvin Klein e Anna Sui tinham os lixos mais glamourosos. Eram imbatíveis. Certa vez, achei tecidos maravilhosos na Helmut Lang. Mas falei na imprensa e eles pararam de jogar os descartes nas caçambas.

Casaco Moncler com nova cara depois de passar pelo ateliê de Geová - Tiago Chediak

A proposta de Geová agradou e foi abraçada por grandes publicações, como "Vogue" Itália e "Nylon", que trataram de colocar o nome do criador no mapa.

- Falavam tanto de mim na imprensa. Eu nem tinha dinheiro para comprar todas as revistas. Ninguém investia em minhas peças. Mas o jogo mudou. Tenho minhas clientes e parcerias com marcas como a UMA.

Entre 1998 e 2012, o estilista produzia dois desfiles anuais. Mas Geová foi perdendo o interesse pelo formato e passou a repensar o modelo. Em setembro, durante a fashion week nova-iorquina, mostrará um filme, batizado de "West X East Village NY".

- Deixei de fazer shows regularmente porque não era mais bacana, estava mostrando umas roupinhas. Percebi que eu não necessitava dessa ferramenta. Não sou contra. Em setembro de 2016, inclusive, armei um desfile, mas com uma cara de performance - explica.

Em sua loja/ateliê no East Village, o designer não tem assistentes e funcionários. Toca o espaço sozinho:

- Meu produto é único. Não gosto que ninguém faça nada para mim. Mas não enxergo a minha moda como arte.

NASCI INTERNACIONAL

Natural de Barcelona, Rio Grande do Norte ("Brinco que nasci internacional"), Geová Rodrigues queria ser bailarino.

- Mas minha mãe não deixou. Por ela, eu seria padre - entrega o criador, continuando: - Vim de uma família simples. Meu pai era analfabeto e agricultor. Foi em São Paulo, nos anos 80, que me interessei por arte e comecei a pintar. Mas essa carreira artística aconteceu por acaso, assim como a de estilista. Hoje, o meu foco é a roupa. Troquei pincel e tinta por linha e agulha.

Geová Atelier na UMA: Rua Dias Ferreira, 45B, Leblon. A coleção Re-design art estará à venda na loja nos dias 22 e 23 de junho, quinta e sexta.