Holanda tem aulas de natação e portão no mar contra mudanças climáticas

Publicado em 17/06/2017 por Folha de S. Paulo Online

Publicidade

O vento que varria o canal gerava ondas de espuma branca e sacudia os guarda-sóis dos restaurantes ao ar livre. Remadores se esforçavam para atravessar a linha de chegada. Henk Ovink, um sujeito magro mas forte, contemplava a prova de um deque VIP, com um olho nos barcos e o outro, como sempre, atento ao celular.

Ovink é uma espécie de porta-voz do conhecimento técnico holandês sobre a alta do nível do mar e o aquecimento global. Como o queijo na França ou carros na Alemanha, a mudança do clima é um negócio nacional na Holanda. Delegações de lugares distantes como Jacarta, Nova York e Nova Orleans chegam mês sim e outro também ao porto holandês de Roterdã.

E essas visitas muitas vezes resultam na contratação de empresas holandesas, que dominam o mercado mundial de engenharia de alta tecnologia e gestão de água.

Isso acontece porque, desde o primeiro momento em que os colonos deste pequeno país começaram a bombear água para abrir terras destinadas à produção agrícola e à habitação, a água é uma questão de identidade nacional na Holanda.

Nenhum outro lugar da Europa vive sob ameaça mais grave do que este país na beira do continente. Boa parte das terras holandesas fica abaixo do nível do mar, e elas estão afundando lentamente. Agora, a mudança do clima traz a perspectiva de marés cada vez mais altas e tempestades mais ferozes.

Na mente holandesa, a mudança do clima não é hipotética e não representa um peso para a economia, mas, sim, uma oportunidade. Enquanto o governo Trump abandona o Acordo de Paris sobre a mudança do clima, os holandeses são pioneiros no caminho do avanço.

A essência do conceito é viver com a água, em vez de lutar para derrotá-la. Os holandeses criaram lagos, garagens, parques e praças que beneficiam a vida cotidiana mas também servem como grandes reservatórios para quando os mares e rios se despejam em forma de inundação.

E o que se aplica à gestão da mudança no clima também se aplica ao tecido social. A resiliência ambiental e a resiliência social deveriam caminhar de mãos dadas, acreditam as autoridades holandesas, melhorando bairros, expandindo participações e domando as águas nos momentos de catástrofe. A adaptação ao clima, se conduzida de maneira direta e correta, deve resultar em um Estado mais forte e mais rico.

É essa a mensagem que os holandeses vêm transmitindo ao mundo. Consultores holandeses que assessoram as autoridades de Bangladesh quanto a abrigos de emergência e rotas de evacuação recentemente ajudaram a reduzir o número de mortes causadas por inundações para centenas em lugar de milhares, de acordo com Ovink.

"É isso que estamos tentando fazer", ele disse. "Você pode dizer que estamos fazendo de nosso conhecimento especializado um artigo de comércio, mas milhares de pessoas morrem a cada ano devido à elevação do nível da água, e o mundo fracassou em enfrentar essa crise coletivamente, o que resulta em perdas de dinheiro e vidas".

Ovink exibe com orgulho a nova raia para remo próxima a Roterdã, que sediou o Campeonato Mundial de Remo do ano passado. A raia é parte de uma área chamada Eendragtspolder, com cerca de nove hectares de canais e campos reaproveitados - um exemplo perfeito de espaço público que, em momentos de inundação, pode ser usado para coletar água.

A forma de pensar holandesa mudou depois que inundações forçaram centenas de milhares de pessoas a abandonar suas casas, nos anos 90. "As inundações serviram para nos despertar e para que devolvêssemos aos rios parte do espaço que lhes pertenceu no passado e que tínhamos ocupado", explicou Harold van Waveren, consultor sênior do governo holandês.

"Não podemos construir barragens cada vez mais altas, porque terminaremos vivendo por trás de muralhas de 10 metros de altura", ele disse. "Precisamos dar aos rios mais espaço para fluir. Existe toda uma filosofia de planejamento espacial, gestão de crises, educação infantil, apps online e espaços públicos".

Van Waveren cita um app nacional de GPS criado para que os moradores sempre saibam exatamente o quanto estão abaixo do nível do mar. Para usar piscinas públicas sem restrições, as crianças holandesas precisam primeiro obter diplomas que requerem que aprendam a nadar de roupa e com sapatos. "É parte básica de nossa cultura, como andar de bicicleta", me disse o arquiteto holandês Rem Koolhaas.

Na Holanda, artigos acadêmicos sobre as mudanças na camada polar do Ártico se tornam notícia de primeira página nos jornais.

"Para nós, a mudança do clima está além da ideologia", disse Ahmed Aboutaleb, prefeito de Roterdã. Ele me levou em uma visita matinal a um projeto de urbanização à beira-mar, em um bairro que no passado era pobre e industrial, a fim de mostrar de que maneira a renovação urbana se combina às estratégias de mitigação dos efeitos da mudança no clima.

"Se alguém é vítima de tiros em um bar, me fazem um milhão de perguntas", disse Aboutaleb sobre sua cidade. "Mas se digo que todo mundo deveria ter um barco, porque prevemos que a intensidade da chuva aumentará imensamente, ninguém questiona essa política. Roterdã fica na parte mais vulnerável da Holanda, tanto econômica quanto geograficamente. Se a água vier, dos rios ou do mar, temos capacidade para evacuar talvez 15% dos moradores. Assim, evacuação não é resposta. Só podemos escapar para edifícios altos. Não há outra escolha. Precisamos aprender a viver com a água".

"Uma cidade inteligente precisa ter uma visão abrangente e holística que vá além de barragens e portões", é o que diz Arnoud Molenaar, que comanda os esforços de Roterdã quanto à mudança no clima. "É preciso conscientizar o público. Boas políticas são necessárias em pequena e em grande escala. Isso começa com coisinhas como convencer as pessoas a remover os pavimentos de concreto de seus jardins, para que a terra por sob eles possa absorver a água da chuva", disse Molenaar. "E termina com uma imensa barreira contra tempestades no Mar do Norte".

Ele está falando do Maeslantkering, construído perto da boca do canal navegável, a cerca de meia hora de carro do centro do Roterdã - a primeira linha de defesa da cidade. Ele é formado por dois braços tubulares, cada qual com comprimento equivalente à altura da torre Eiffel.

Nos 20 anos desde que foi construído, o Maeslantkering não foi necessário para prevenir inundações, mas é testado regularmente, por garantia.

O Maeslantkering é consequência de repetidas calamidades históricas. Em 1916, o Mar do Norte se abateu sobre a costa da Holanda, o que deu causa a uma série de construções protetoras que não foram capazes de conter as águas em 1953, quando uma tempestade noturna causou mais de 1.800 mortes. Os holandeses ainda chamam a tempestade simplesmente de "O Desastre". Os esforços nacionais foram redobrados, e incluíram a inauguração do projeto Delta Works, que canalizou duas grandes vias aquáticas, e do Maeslantkering, um portão marinho gigantesco, inaugurado em 1997, que mantém aberta a imensa via marítima que serve a todo o porto de Roterdã.

Proteger o porto é fundamental. O porto de Roterdã é um dos mais movimentados do planeta e continua a ser o mais importante da Europa, recebendo dezenas de milhares de navios de todo o mundo a cada ano -ele supre a Alemanha de aço, despacha petroquímicos para a América do Sul, e praticamente tudo mais, a todos os lugares.

A ideia por trás do projeto não tinha precedentes - um portão monumental com dois braços, estendidos dos dois lados do canal, cada qual com comprimento equivalente à altura da Torre Eiffel, mas duas vezes mais pesado. Quando o portão se fecha, os braços avançam rumo ao centro do canal, se encontram e se travam, e os tubos se enchem de água e afundam em um leito de concreto, formando uma muralha de aço impenetrável contra o Mar do Norte. O processo demora duas horas e meia. A pressão que o mar gera é então transferida da muralha para as maiores juntas esféricas do planeta, afixadas às duas margens do rio.

Computadores monitoram o nível do mar a cada hora e podem fechar o portão automaticamente ou abri-lo. Dentro do portão, 30 bombas estão ligadas a uma das redes de eletricidade do país. Elas extraem água dos tubos quando é hora de reabrir o Maeslantkering.

Se a rede elétrica falhar, há um circuito de reserva e, como último recurso, um gerador, porque ainda mais perigoso que o portão não fechar é que ele não volte a se abrir. Nesse caso, a água que se despeja do Mosa e do Reno poderia não fluir para o mar, e devastaria Roterdã ainda mais rápido do que uma inundação causada pelo Mar do Norte. Escapar seria impossível.