Com impeachment em discussão, qual a chance real de Trump cair?

Publicado em 18/06/2017 por O Globo

Trump cumprimenta fotógrafos e apoiadores ao desmbarcar em Milwaukee - Morry Gash / AP

WASHINGTON - O clima nas últimas semanas na capital americana remete aos tensos anos do governo de Richard Nixon: a cada dia uma nova revelação, presidente acuado e a ampliação do sentimento na maioria dos americanos de que Donald Trump é culpado de tentar obstruir a Justiça. Ele já é investigado no caso, enfrenta processos sobre o enriquecimento indevido de recursos de governos estrangeiros, graças aos seus hotéis, e foi acusado de mentir. Assim, a palavra impeachment vem sendo cada vez mais pronunciada em Washington. Mas quais as chances reais de um processo para destituir o presidente mais impopular dos Estados Unidos?

Alguns especialistas afirmam que, juridicamente, já há evidências que poderiam embasar um pedido de impeachment - mas não são, até o momento, fortes o suficiente para superar as barreiras políticas, com republicanos dominando as duas casas do Congresso, que protegem Trump de um processo. Faltariam provas incontestáveis, como as que levaram Nixon a renunciar em 1974 e que permitiram a abertura do processo contra Bill Clinton, no final dos anos 1990. Mas não significa que, em pouco tempo, isso não surja nas investigações que ocorrem no Senado, na Câmara e com o promotor especial Robert Mueller. Elas começaram averiguando se houve conluio da campanha republicana na intervenção russa na eleição presidencial de novembro, mas evoluíram para checar denúncias de obstrução de Justiça e até prováveis crimes financeiros.

- Agora, é altamente improvável que o presidente Trump seja abandonado pelos republicanos da Câmara - afirmou ao GLOBO o professor Russell Riley, copresidente do Programa Presidencial de História Oral da Universidade de Virgínia e autor de livros sobre os anos do governo Clinton, observando duas circunstâncias que poderiam reverter esta condição: - A primeira é se a investigação de Mueller revelar indiscutíveis provas de falhas do presidente, algo equivalente às fitas do Salão Oval de Nixon (que comprovaram que o presidente tentava barrar a investigação de Watergate) ou o vestido azul de Monica Lewinsky (prova material que conseguiu, graças à coleta de DNA de Bill Clinton, determinar as mentiras do democrata).

Renovação do congresso muda cenário

A outra, em sua opinião, é que o país viva alguma emergência nacional, com forte piora das condições econômicas ou políticas. Um caos político é mais difícil de ocorrer, pois Trump sempre tentará culpar os democratas e as forças que tentam sabotar seu governo.

Assim, na avaliação do professor, somente um ambiente de catástrofe econômica poderia levar eleitores republicanos a admitirem que este presidente é um fracasso. Do contrário, apenas as eleições de 2018, quando serão renovadas todas as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e 33 das 100 do Senado, podem mudar este cenário. Mesmo tendo 36% de popularidade nacional, cerca de 75% dos eleitores republicanos continuam a aprovar o governo de Trump.

- As perspectivas de impeachment dependem dos resultados das eleições de 2018, que serão nacionalizadas em ambos os lados, ou seja, será um referendo informal sobre a aptidão do presidente ao cargo. Se os democratas ganharem, acho que o impeachment é uma possibilidade real - avalia Riley.

Compare a situação dos três presidentes
Trump é o único cujo partido controla as duas casas do Congresso
Comey é recebido pelo presidente: saída detonou crise
Com as transcrições de gravações sobre o escândalo Watergate
Com a estagiária Monina Lewinsky, na Casa Branca
Donald Trump
Richard Nixon
Bill Clinton
Partido
Partido
Partido
Republicano
Republicano
Democrata
Ano do caso
Ano do caso
Ano do caso
2017
1974 (escândalo começou em 1972)
1998 e 1999
Acusações
Acusações
Acusações
Obstrução de Justiça, perjúrio,
recebimento de recursos de governos
estrangeiros (em seus hotéis)
Obstrução de Justiça, abuso de poder
econômico e desrespeito ao Congresso
Perjúrio e obstrução da Justiça
Momento do mandato
Momento do mandato
6º e 7º anos (havia sido reeleito)
Momento do mandato
6º ano (havia sido reeleito)
Situação do Congresso
1º ano (do primeiro mandato)
Situação do Congresso
Controle da oposição (republicana)
na Câmara (223 a 212) e no
Senado (55 a 45)
Situação do Congresso
Controle da oposição (democrata)
na Câmara (241 a 192) e no
Senado (57 a 42)
Controle da situação (republicana) na
Câmara (239 a 194) e no Senado
(52 a 48)
Aprovação popular*
Aprovação popular*
71%
Aprovação popular*
35%
Desfecho
36%
Desfecho
Foi absolvido das duas acusações
pelo Senado
Desfecho
Renunciou antes da abertura formal do
processo, mas especialistas indicam que
sua condenação era muito provável
Não há ainda acusação formal contra o
presidente,mas as investigações
continuam em diversas frentes
*De acordo com pesquisas do Gallup
Compare a situação dos
três presidentes
Trump é o único cujo partido controla as
duas casas do Congresso
*De acordo com pesquisas do Gallup

Ao comparar a situação de Trump com Nixon e Clinton, Leo Ribuffo, professor da George Washington University e especialista na história dos presidentes americanos no século XX, afirma que, pelo que se sabe, as provas e as acusações contra Trump são menos fortes do que nos outros dois casos. Neste ponto, o apoio político é fundamental para um mandatário se manter na Casa Branca: o processo de cassação só começa com a aprovação da Câmara, e o presidente só deixa o cargo com a votação de dois terços dos cem senadores.

- Podemos fazer uma análise legal sobre os impeachments, mas nos EUA o processo de cassação é, principalmente, um assunto político - afirma o especialista, que acredita que o cenário só tende a ficar preocupante para Trump com uma prova bombástica ou a perda do controle da Câmara dos Representantes.

No seu entender, mesmo que Mueller conclua que houve obstrução da Justiça na conversa de Trump com James Comey (ex-diretor do FBI demitido em maio), isso seria difícil de provar, já que é apenas a palavra de um contra o outro.

Sem perjúrio

Ribuffo argumenta que as mentiras de Trump não foram feitas sob juramento, o que dificulta uma punição. Ele também não vê, por ora, riscos de Trump perder o cargo por seus hotéis hospedarem governantes estrangeiros. Ele observa que a lei proíbe expressamente presentes de outros países, mas não trata de relações comerciais com o exterior.

Erick Langer, historiador da Universidade de Georgetown, acredita que o problema não são as provas de que Trump tentou interferir nas investigações sobre a Rússia - além dos depoimentos de Comey, a própria demissão do diretor do FBI dias após ele pedir mais recursos para o caso seria uma forte evidência -, mas sim a avaliação política do custo de mantê-lo ou tirá-lo do cargo.

Apesar dos grandes projetos de Trump não avançarem, como o muro na fronteira com o México, a reforma do sistema de saúde ou o plano trilionário de infraestrutura, muito da agenda conservadora está caminhando. Como exemplos, a desregulamentação do setor financeiro e o fim de normas ambientais e de saúde pública.

- Enquanto Trump for útil na Casa Branca, duvido que os republicanos vão se virar contra ele - atesta Langer. - Seria pesado para o partido ter a marca do primeiro presidente a sofrer impeachment de fato nos EUA.

As investigações

de um caso polêmico

FBI

COMISSÃO DE

INTELIGÊNCIA DA CÂMARA

CONGRESSO

COMISSÃO DE

INTELIGÊNCIA DO SENADO

A DEMISSÃO

QUE LANÇA

SUSPEITAS

COMISSÃO DE

SUPERVISÃO DA CÂMARA

COMISSÃO

JUDICIÁRIA DO SENADO

As investigações

de um caso polêmico

FBI

CONGRESSO

COMISSÃO DE

INTELIGÊNCIA DA CÂMARA

COMISSÃO DE

INTELIGÊNCIA DO SENADO

COMISSÃO DE

SUPERVISÃO DA CÂMARA

COMISSÃO

JUDICIÁRIA DO SENADO

A DEMISSÃO QUE LANÇA

SUSPEITAS