Incêndio mortal em edifício de Londres revela falhas na segurança

Publicado em 16/06/2017 por Valor Online

LONDRES - Atualizada às 21h30 - Abalado pelos recentes ataques terroristas em Manchester e Londres, o Reino Unido voltou a enfrentar uma tragédia na madrugada de quarta-feira com o incêndio na Grenfell Tower, edifício de 120 apartamentos na zona oeste da capital britânica. Pelo menos 17 moradores morreram e cerca de 80 pessoas foram levadas a hospitais da região, sendo que 13 estão em estado crítico. O incêndio levantou questões sobre as condições nas torres de apartamentos da cidade, criticadas por sua infraestrutura precária e regras de segurança ineficazes, e gerou lamentos por parte de moradores, que afirmam que o desastre foi fruto de negligência das autoridades, após uma série de avisos. A primeira-ministra britânica, Theresa May, prometeu uma "profunda" investigação sobre o incidente. "Há preocupações genuínas e compreensíveis que surgiram durante a noite, e é muito importante que essas questões não fiquem sem resposta", afirmou o prefeito de Londres, Sadiq Khan. "Exigirei respostas, e posso assegurá-los de que garantirei independência em relação a esse caso. Temos muitas torres de apartamentos espalhadas por Londres, e não podemos permitir uma situação na qual a segurança das pessoas seja colocada em risco, seja por orientações erradas ou por serviços de manutenção errados." A estratégia de segurança em casos de incêndio adotada pela torre foi alvo de uma chuva de críticas por parte dos sobreviventes. Segundo moradores da Grenfell Tower, cartazes nos corredores indicam que as famílias devem permanecer dentro dos apartamentos em caso de incêndio, uma orientação repetida por membros da brigada de incêndio local. "Eles nos disseram que o procedimento padrão é fechar as portas, que seriam capazes de resistir ao calor por tempo suficiente, mas o que parecem não entender é que o fogo se espalhou por todo o prédio", afirmou um morador à rede BBC. "Se tivéssemos ouvido os conselhos da brigada de incêndio e da administração local, poderíamos ter morrido." O comandante da polícia, Stuart Cundy, informou ao diário "Guardian" que as equipes de resgate não esperam mais encontrar sobreviventes na carcaça do edifício, de 24 andares. Ainda há desaparecidos, entre eles uma menina de 12 anos e um homem de 82. Estimativas indicam que um número entre 400 a 600 pessoas vivem no edifício, e que cerca de 200 pessoas estavam na torre no momento em que o fogo começou a se espalhar. Bombeiros resgataram 65 pessoas do prédio em chamas, enquanto outras conseguiram sair sozinhas do local. No desespero, pais chegaram a lançar crianças das janelas para protegê-las do fogo e da fumaça. O incêndio, que autoridades imaginam ter começado no quarto andar por volta de 1h (hora local), rapidamente se espalhou, chegando aos andares superiores. Boa parte dos moradores afirma ter sido acordada não pelos alarmes de incêndio mas pelos gritos de socorro de vizinhos. De acordo com a imprensa britânica, a torre não estava equipada com um sistema interligado de alarmes, ou mesmo com um mecanismo central de sprinklers para combater as chamas, ferramenta que, segundo um levantamento da revista britânica "Inside Housing", de 2015, só existe em 1% das torres de apartamentos do Reino Unido. Em um blog, David Collins, representante do grupo de moradores de Grenfell afirmou: "Todos os nossos alertas foram ignorados e previmos que uma catástrofe como essa era inevitável e uma mera questão de tempo". No ano passado, o grupo alertara a Organização de Gerenciamento de Inquilinos do distrito de Kensington e Chelsea (KCTMO, na sigla em inglês) sobre a política de segurança contra incêndios, citando incidentes em 2013 nos quais os moradores ficaram sem energia elétrica por problemas na fiação elétrica. Embora a causa do incêndio ainda não tenha sido determinada, moradores apontam materiais usados na renovação da fachada exterior do prédio como possível motivo da rápida propagação das chamas. "As torres de apartamentos são construídas sobre o princípio de que cada unidade é como uma caixa resistente ao fogo, completamente envolta em material não-inflamável", afirmou David Sibert, especialista em segurança do sindicato dos bombeiros de Londres, ao "Washington Post". "Seguindo esse princípio, você poderia incendiar seu apartamento e deixá-lo queimar sem que o fogo se espalhasse para o resto do prédio." A opinião de Sibert é compartilhada pelo inspetor de segurança Geoff Wilkinson. "A Grenfell Tower não se comportou como se esperaria durante o incêndio. Num caso como esse, imagina-se que as chamas ficariam contidas em um único apartamento", afirmou à BBC. "Algo saiu muito errado aqui." A empresa Rydon, responsável pela reforma da torre - avaliada em 9,7 milhões de libras (R$ 40,5 milhões), e concluída em maio de 2016 - se disse "chocada com o incêndio", mas esclareceu que cumpriu padrões de segurança: "A Rydon completou uma reforma no prédio no verão de 2016 para a KCTMO, que atendeu aos padrões exigidos de controle do prédio, regulação de incêndio, saúde e segurança", disse a companhia em comunicado. "Vamos cooperar com as autoridades relevantes e serviços de emergência e apoiar integralmente suas investigações sobre a causa deste incêndio no momento adequado." O incêndio também teve efeitos sobre a política local, ainda sob o reflexo das eleições gerais na semana passada. Theresa May, que iniciaria negociações com o Partido Unionista Democrático, legenda norte-irlandesa com quem busca formar uma coalizão para governar o país, foi obrigada a adiar seus planos. May se disse profundamente triste com o incidente em Londres: "Os pensamentos da primeira-ministra estão com todos os afetados por esse terrível incidente e os serviços de emergência, que trabalham incansavelmente em circunstâncias muito difíceis", disse o gabinete da premiê em comunicado.