LUIZ GERALDO MAZZA

Publicado em 17/06/2017 por Folha de Londrina


Tempestade, pós-bonança

No retorno de mais uma viagem, cujo retorno nunca se sabe a não ser quando se capta anomalia como se deu com aquela estada em Paris, o governador terá uma agenda dura para administrar: um novo pacote, suplementar aos anteriores, e a ida ao Judiciário para obrigar as universidades ao enquadramento na Meta 4. O pacote, dessa feita, não é gerador de atritos e convulsões como os dois anteriores, mas seguramente o conflito com as universidades estaduais, decorrente também do ajuste fiscal, é matéria de alta complexidade diante da elástica interpretação que os reitores costumam dar ao conceito de autonomia, a cada vez que há uma trombada financeira como se deu em vários governos.

Não há por que admitir um tipo de autonomia que transformasse a universidade num feudo em que pudesse dispersar seus recursos sem qualquer balizamento orçamentário. Se é verdade o que diz Beto Richa, que elas gastam 80% das verbas em salários e vantagens, o maior culpado é ele, pois está no posto há muito tempo e nada fez para obrigá-las à racionalidade e, ao contrário, estimulou-as ao abuso transformado em praxe que no Brasil, e também aqui no Paraná, se costuma confundir com direito adquirido.

A desídia deveria, portanto, ser atribuída a ele em compartilhamento com reitores e gestores acadêmicos, uma espécie de consenso que a prática acabaria consagrando e se deveria também cobrar do gestor financeiro, Mauro Ricardo Costa, que bota uma lupa nas planilhas, a sua cota de responsabilidade por tratar-se daquilo que invectivou, inclusive em outros poderes, como "ilhas de tranquilidade". Moralmente, o governo não está bem escudado pela simples evidência de que trata desigualmente os desiguais quando permite reajuste aos demais poderes e os nega, ferreamente, ao Executivo como se estivesse admitindo ser a causa de todo o desequilíbrio, ou pior ainda, como se não estivesse disposto a enfrentá-los com o rigor que anuncia para as universidades.

No pacote mexe com a Polícia Militar e como os estamentos já andam desconfiados no temor das pegadinhas terá, por certo, que enfrentar a vigilante Amai que sempre se mostrou viril e por vezes até transbordante nas suas pretensões. Depois, portanto, da calmaria (se é que não teremos problemas na viagem) a esperada tormenta.

Ação direta
Em nome da democracia e do chamado direito à participação, há o abuso da ação direta em manifestações, sejam ornadas ou não com black blocs, como as havidas em Brasília e com maior frequência no Rio nas votações do pacote fiscal. Por sinal que, as recentes de Curitiba, configuráveis como atos de resistência civil, chegaram ao extremo de bloquear e impedir a atividade legislativa na base manifesta da coação e da força física impedindo, na verdade, o funcionamento da Câmara Municipal. Como as negociações persistem amarradas, tem-se como certo que aumentou o poder de arregimentação dos rebelados.

Quando do acerto do convênio entre o Hospital de Clínicas e a Empresa de Assistência Hospitalar Federal, tivemos exatamente o que se dá agora com o trâmite do pacote de Rafael Greca: só que bloquear o ingresso de membros do Conselho Universitário na hora de votar é grave, mas muito menor do que impedir o vereador de legislar e, ainda por cima, ameaçá-lo e constrangê-lo fisicamente. O pior é que os manifestantes sabem de antemão que levam a pior, daí o radicalismo das ações já praticadas e outras que virão. Virar o placar não é fácil, ainda que a adesão da bancada do PDT com seus cinco integrantes possa ampliar a voz da rebelião. Para vereadores, eventualmente de olho no pleito para deputado estadual, a oportunidade de negociar ou aproveitar-se da situação criada é de ouro.

E há um problema de ordem temporal: a urgência de votar as medidas para que não acabem agredindo o princípio da anterioridade fiscal e não possam vigorar no atual exercício.

Segurança
Um apelo dramático da prefeitura da capital para que os moradores próximos das escolas e unidades de proteção infantil denunciem qualquer ação dos vândalos e ladrões que se tornam mais comuns nos feriadões. É a confissão da falência absoluta nos órgãos de segurança a quem compete tais cuidados. Prejuízos elevadíssimos têm ocorrido com roubos e depredações e volta e meia relatados nos comunicados oficiais que expressam impotência. Para completar o cenário de desalento, tivemos ontem em Cerro Azul a explosão de caixas eletrônicas de uma agência bancária. É verdade que caíram os números de ataques, mas não há avanços significativos em ações preventivas ou repressivas.

Melhora
Sinais de descompressão no mercado, especialmente em abril ou das vendas de carros novos em maio, não ajudaram, segundo a Associação Comercial do Paraná, a melhorar o movimento de compras do Dia dos Namorados que teria caído em 9% em relação ao ano passado. Saiu elevação também em pesquisa de inadimplência que explica na concentração das dívidas familiares a causa maior da queda no consumo, apesar da liberação das contas do FGTS.

Folclore
Nota oficial do Palácio Iguaçu afirma que o governador recebeu com perplexidade a notícia de novas investigações no STJ e parte da sociedade também se mostrou atônita com nova viagem depois da condenação judicial pelo descanso em Paris daquela anterior.