Motoristas de táxi e do Uber repercutem decisão do TJ-BA

Publicado em 17/06/2017 por A Tarde - BA

Taxista, Gilmar Bião, 42, conta que, após Uber, tem dificuldade de pagar R$ 400 do aluguel do alvará e do carro - Foto: Mila Cordeiro | Ag. A TARDE
Taxista, Gilmar Bião, 42, conta que, após Uber, tem dificuldade de pagar R$ 400 do aluguel do alvará e do carro
Mila Cordeiro | Ag. A TARDE

Dois dias após o Pleno do Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA) julgar inconstitucional a lei municipal que proibia a operação do Uber em Salvador, A TARDE foi às ruas ouvir taxistas e motoristas da plataforma sobre a decisão da corte baiana. 

De um lado, os condutores de táxi seguem reclamando da concorrência, enquanto, do outro, os "uberistas" esperam pelos próximos passos nessa disputa judicial sem previsão de acabar.

Isso porque a prefeitura ainda promete recorrer da sentença. De acordo com o secretário de Mobilidade, Fábio Mota, o assunto está sob a responsabilidade da chefe da Procuradoria-Geral do Município (PGM), Luciana Rodrigues Pontes, que, segundo ele, ainda está analisando a forma como será feito o recurso judicial.

A ação em questão, lembrou Mota, diz respeito à ação direta de inconstitucionalidade (Adin) movida pelo Ministério Público da Bahia contra a lei que proibiu o Uber. Ainda tramita, porém, um recurso do município contra a liminar da juíza Ana Maria Silva Araújo de Jesus, que, no plantão do Carnaval, liberou a operação do aplicativo até dezembro.

Segundo o secretário, não há possibilidade, por ora, de regulamentação da plataforma. "O prefeito tinha dito que ia recorrer até onde tivesse grau de recurso e que, depois disso, se fosse o caso, se perdêssemos , seria para regulamentar", explica.

A equipe de reportagem tentou entrar em contato com a procuradora Luciana Rodrigues Pontes, para saber quando ela iria recorrer da decisão do pleno do TJ e quais argumentos jurídicos serão usados, mas ela não atendeu as ligações feitas durante todo o dia de ontem.

Para o Uber Cláudio Sena, 50, uma possível regulamentação do serviço pela prefeitura representaria "uma perda" para a categoria. "Seria ruim porque sabe-se que a prefeitura está do lado dos taxistas, o prefeito já se mostrou hostil com os [motorista do] Uber", afirmou.

Ele defende que a decisão do TJ "restabeleceu o direito dos motoristas trabalharem e dos usuários escolherem qual serviço usar".

Motorista da plataforma aos finais de semana, Douglas Júnior teme que uma possível regulamentação gere mais gastos. Ele critica a porcentagem de 25% cobrada pela empresa sobre cada corrida realizada.

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O Uber é a pior coisa que já aconteceu na cidade. Caiu 50% meu lucro

José Nino, taxista

"Acredito que, agora, está mais seguro com a liberação, mas tem esse ponto negativo, eu acho exagerado o valor que eles cobram. Podia ser mais baixo", defende.

Insatisfeitos

Do outro lado, há um ano na profissão, o taxista Gilmar Bião, 42, diz que a concorrência com o aplicativo é "desleal". Ele, que aluga alvará e carro por R$ 400 semanais, conta que tem trabalhado 16 horas por dia para conseguir pagar o valor, que, nos tempos áureos do ofício, chegou a ser de R$ 800, segundo os taxistas.

"Mesmo com essa redução pela metade, está difícil", afirma Bião, visivelmente desanimado com a situação. "Só consigo pagar as contas principais e deixo o resto pra depois", relata ele.

Aos 76 anos e 40 de profissão, o também taxista José Nino dos Santos conta que, por causa da concorrência, está com duas parcelas do financiamento do táxi atrasadas. Cada uma custa R$ 737. "Sempre que vai vencer a terceira, eu pago, porque senão podem confiscar meu carro", conta.

Para ele, "o Uber é a pior coisa que já aconteceu na cidade". José critica o fato da plataforma ser estrangeira. "A gente que vá para os Estados Unidos implementar qualquer coisa lá, pra ver".

A posição radical contra o aplicativo já não é mais adotada pelo Sindicato dos Taxistas de Salvador (Sinditaxi). Hoje, afirma um dos diretores da entidade, Antônio Cruz Melo, a regulamentação seria a melhor opção.

"Assim eles iam pagar as mesmas taxas que nós e ter uma tarifa parecida, mais competitiva", defende, reclamando, porém, dos cerca de R$ 1 mil que terá que gastar, no próximo mês, com a vistoria anual do táxi.