Com obra escrita em jogo de jantar, designer inventa formatos de livros

Publicado em 17/06/2017 por Folha de S. Paulo Online

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Um jogo de jantar com tudo dentro -porta-copos, guardanapos, jogo americano- pode, sim, ser um livro. Se não quiser ler, ou se não gostar, sempre dá para servir uma macarronada em cima da obra para os amigos.

O livro em questão, "Lululux" (Lote 42, 2015), é uma das experiências às quais Gustavo Piqueira, 45, tem se dedicado nos últimos anos.

Num processo que fica mais radical com o passar do tempo, o designer e escritor tem se dedicado a experimentar com a forma física do livro -e, é claro, também com a relação entre ela e a forma textual.

Dono de um escritório de design bem estabelecido no mercado -e com centenas de prêmios acumulados, a Casa Rex, Piqueira tem construído uma carreira literária em editoras independentes -o que tem a ver com seu processo de produção, que mistura industrial e artesanal.

Ele trabalha também com tiragens de mil exemplares, número visto como comercialmente inviável para editoras grandes, que costumam começar com impressões que vão de 3.000 a 5.000.

Eduardo Anizelli/Folhapress
SAO PAULO, SP, BRASIL, 14-06-2017, 14h00: Retrato do designer Gustavo Piqueira, que esta se destacando na criacao de livros objetos. (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress, ILUSTRADA) ***EXCLUSIVO***
O designer Gustavo Piqueira em seu escritório

Sua mais recente empreitada é "Oito Viagens ao Brasil", caixa com oito volumes que chega agora às livrarias. A obra vem com uma exposição no Museu da Casa Brasileira. Como todo trabalho de Piqueira, é um livro difícil de classificar e explicar.

Misturando ficção e não ficção, a obra reflete a pesquisa do escritor sobre a origem de iconografia do Brasil e sua relação com o surgimento da cultura impressa, no século 16.

O livro começa com um narrador ficcional; traz um ensaio sobre Hans Staden, que publicou um livro sobre sua viagem ao Brasil em 1557; textos do próprio Staden, com fotos de Ubatuba hoje; histórias em quadrinhos; e um volume rasgado, entre outros elementos.

"Nesse trabalho, é como se eu estivesse experimentando formas diferentes de ocupar um livro. Mas o livro também é um olhar sobre a criação da imagem do Brasil", diz Piqueira.

O autor tem uma obra que dialoga com o passado e as formas contemporâneas. Ele fez uma tradução livre, por exemplo, de Luciano de Samósata, grego tido como precursor da ficção científica.

valfrido

Para a Edusp, em 2014, ele reescreveu os quatro Evangelhos como se fossem um "press release". E substituiu Jesus por um creme anticelulite com azeite e minerais do mar Morto. O projeto gráfico, que incluía até bijuterias, remetia a Bíblias medievais.

"Esse livro ganhou um monte de prêmio de design, e eu percebi que ninguém leu!", ri o autor. "Dependendo do formato, a pessoa tem uma relação diferente com o livro."

O designer conta que, como uma piada diante desse fato, resolveu fazer o livro no jogo de jantar.

"É claro que eu quero ser lido, mas faço de propósito, para gerar reações que alimentem meus projetos seguintes. O meu trabalho [com os livros] é uma sequência."

O primeiro reconhecimento no campo do texto veio ano passando, quando seu "Lorde Creptum" (ed. Pulo do Gato), foi finalista do prêmio Jabuti, na categoria juvenil.

PELO CORREIO

Até agora, a experiência mais profunda de Piqueira com o livro nem livro era -pelo menos no começo.

Em outubro de 2015, 9.000 residências de Santa Cecília e Higienópolis começaram a receber, por mala direta, envelopes denunciando um cipoal de trambiques cometidos por um tal de Valfrido. "Valfrido, seu canalha! Canalha!", dizia o primeiro.

As cartas eram capítulos de uma história escrita por Piqueira, que depois os reuniu em um livro, contando os bastidores do projeto.

"Gerou uma paranoia aqui no bairro. Eu tinha uma vizinha que queria chamar a polícia", lembra João Varella, um dos sócios da Lote 42, que publicou "Valfrido".

O designer diz não saber explicar bem o seu trabalho.

"Já me disseram que não é literatura, que não é arte e que não é design. Agora estou confortável com esse não lugar."

OITO VIAGENS AO BRASIL
AUTOR Gustavo Piqueira
EDITORA WMF Martins Fontes
e Biblioteca Brasilia Guita e José Mindlin
QUANTO R$ 80, com 50% de desconto no lançamento (832 págs., 57 delas rasgadas)

EXPOSIÇÃO PRIMEIRAS IMPRESSÕES
ONDE Museu da Casa Brasileira, av. Brigadeiro Faria Lima, 2705, tel. (11) 3032-3727
QUANDO 24/6, às 14h
QUANTO grátis