Ócio e amargura

Publicado em 17/06/2017 por Folha de S. Paulo Online

RIO DE JANEIRO - Eleanor Coppola, mulher de Francis Ford Coppola, mãe de Sofia Coppola e Roman Coppola, nora do compositor Carmine Coppola e tia ou avó de mais Coppolas, inclusive os que carregam sobrenomes que não Coppola, todos ligados ao cinema, estreia como diretora de um filme de ficção, "Paris Pode Esperar", elogiado pelo pessoal. Detalhe: Eleanor tem 81 anos. Bela idade para um começo de carreira.

Claro que, casada com Coppola desde 1962, ela de alguma forma participou dos filmes do marido e, em 1991, dirigiu um documentário, "O Apocalipse de um Cineasta", mostrando os bastidores de "Apocalypse Now" (1979), talvez o melhor produto dos Coppolas. Mas, em 1991, Eleanor tinha 55 anos, idade em que, provavelmente, ainda subia e descia pela escadinha de helicópteros em pleno voo. O notável é ter resolvido se aventurar agora, já tão idosa, na direção de um filme de verdade.

Eleanor está começando numa idade em que, na Hollywood do passado, os grandes diretores já tinham sido compulsoriamente aposentados -porque os estúdios não conseguiam que as companhias de seguros os bancassem. Com isso, esses diretores encerravam a carreira e só iam morrer muitos anos depois, amargurados e odiando o ócio a que tinham sido condenados.

Elia Kazan, por exemplo, diretor de "Sindicato de Ladrões" (1954), fez seu último filme aos 67 anos e morreu aos 94, em 2003. Stanley Kramer, de "O Vento Será Tua Herança" (1960), teve de parar aos 66 e morreu aos 88, em 2001. Joseph L. Mankiewicz, de "A Malvada" (1950), foi para casa aos 64 e morreu aos 84, em 1993. Frank Capra, de "A Mulher Faz o Homem" (1939), idem, aos 64, e morreu aos 94, em 1991. E muitos outros.

Todos foram, um dia, temidos e poderosos. Mas eram de uma época em que, ao velho, só restavam a cadeira de balanço e uma manta xadrez sobre as pernas.