ONU acusa Turquia de grave violação dos direitos humanos contra curdos

Publicado em 10/03/2017 por RFI

As forças de segurança turcas cometeram "graves violações" dos direitos Humanos durante as operações contra os rebeldes curdos desde o fim do cessar-fogo em 2015, denunciou a ONU (Organização das Nações Unidas) nesta sexta-feira (10), exigindo uma urgente investigação independente.

Em seu primeiro relatório sobre o assunto, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACDH) detalha as "alegações de destruição em massa, assassinatos e muitas outras graves violações aos direitos humanos cometidas entre julho de 2015 e dezembro de 2016 no sudeste da Turquia durante as operações de segurança do governo".

O sudeste turco, predominantemente curdo, convive com combates diários entre os rebeldes do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), considerado uma organização terrorista por Ancara, Bruxelas e Washington, e as forças de segurança. O conflito deixou mais de 40 mil mortos desde 1984.

Segundo a ONU, as operações realizadas pelas forças de segurança turcas entre julho de 2015 e o final de 2016 afetaram mais de 30 localidades. Alguns bairros foram completamente arrasados e entre 355 mil e 500 mil pessoas, em sua maioria curdos, precisaram deixar suas casas.

O ACDH, ao qual a Turquia não autorizou a entrada na área de conflito, elaborou o seu relatório com base em imagens de satélite, entrevistas com vítimas, testemunhos e suas famílias e com informações de várias ONGs atuantes na Turquia.

"Uso excessivo da força"

Cerca de 2 mil pessoas, incluindo 800 membros das forças de segurança e 1.200 habitantes da região, "teriam morrido durante as operações de segurança no sudeste da Turquia".

"Entre os 1.200 civis mortos, um número indeterminado poderia estar envolvido em ações não-violentas contra o Estado", aponta o relatório.

"O governo turco não nos autorizou o acesso, mas questionou a veracidade das alegações muito graves publicados no documento", declarou o alto comissário, Ra'ad Zeid Al Hussein, em um comunicado.

"Mas a gravidade das acusações, a escalada da destruição e o deslocamento de mais de 355 mil pessoas significam que é urgente e necessária uma investigação independente", acrescentou a ONU.

No seu relatório, a entidade aponta para o "uso excessivo da força, assassinatos, desaparecimentos forçados e tortura".

Resultado alarmante

O alto comissário diz estar "particularmente alarmado com os resultados da análise das imagens de satélite que revelam destruições maciças de casas com armamento pesado".

Por exemplo, o relatório descreve a destruição de bairros inteiros na cidade de Nusaybin, na província de Mardin, onde 1.786 edifícios foram destruídos ou danificados.

Em maio de 2016, antes do fracassado golpe de Estado de julho de 2016 na Turquia, o alto comissário publicou um comunicado no qual denunciava as violações cometidas pelas forças de segurança turcas durante operações contra o PKK.

Desde então, Ancara não realizou nenhuma investigação, lamenta a ONU, que considera preocupantes as medidas adotadas desde o golpe de Estado.