Os líderes estrangeiros que torcem por Trump

Publicado em 01/11/2016 por O Globo

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Pode parecer que os aliados dos EUA, do México ao Reino Unido e Japão, estão prendendo a respiração enquanto torcem, nem sempre silenciosamente, para que Donald Trump não se torne presidente. Eles vêm acompanhando a campanha do republicano "com descrença, uma dose de frustração e claramente com crescente apreensão", como afirmou o ex-ministro de Relações Exteriores e colunista do "Washington Post" Carl Bildt.

Isso é verdade - mas não inteiramente. Há, na verdade, um número de importantes aliados dos EUA, dentro e fora da Otan, que abertamente ou silenciosamente estão torcendo por uma vitória de Trump. Eles oferecem um roteiro de alguns dos problemas que um governo de Hillary Clinton enfrentaria à medida que tentasse reconstruir a liderança americana em Europa, Oriente Médio e Ásia.

Comecemos com dois líderes da Otan que publicamente endossaram Trump: o presidente Milos Zeman, da República Tcheca, e o primeiro-ministro Viktor Orban, da Hungria. Zeman, admirador de Vladimir Putin, tem uma posição mais figurativa, e o governo tcheco discorda de sua posição. Mas Orban é o líder de uma poderosa corrente política na Europa Central: de mentalidade nacionalista, xenófoba e autocrática. Ele fez um discurso louvando Trump por, entre outras coisas, apoiar a suspensão da imigração muçulmana e se opor "à política de exportação da democracia".

Orban é um modelo para o premier eslovaco, Robert Fico, conhecido por declarar que "o Islã não tem lugar na Eslováquia", e o líder de fato da Polônia, Jaroslaw Kaczynski, cujo partido tem sido acusado pela União Europeia de desmantelar a cultura política de freios e contrapesos democráticos.

No início do ano, Kaczynski e Orban entraram numa briga pública com Bill Clinton depois que o ex-presidente, sem tato diplomático mas com precisão, observou que Polônia e Hungria "decidiram que democracia agora dá muito trabalho". Orban retrucou afirmando que Clinton, "como os líderes do Partido Democrata", era o peão de um "império das sombras" controlado por George Soros, o financista judeu americano que nasceu na Hungria. Por seu lado, Kaczynski sugeriu que Clinton precisava fazer um exame de saúde mental.

Imagine a primeira reunião de cúpula da Otan com Hillary Clinton: ela poderia se ver sentada entre um estadista cujo chefe chamou seu marido de mentecapto, e outro que acredita que o Partido Democrata é controlado por uma cabala judaica. Kaczynski, enquanto isso, estará esperando que Hillary apresente os planos sobre as tropas americanas e as defesas contra mísseis na Polônia, independentemente de seus insultos ao ex-presidente ou à democracia polonesa.

Ele poderia ter indagado a Benjamin Netanyahu o que acontece quando um líder estrangeiro toma posição numa eleição presidencial americana. Após ter explicitado seu apoio a Mitt Romney em 2012, o primeiro-ministro israelense se tornou um alvo constante de vazamentos e insultos da Casa Branca, especialmente durante sua campanha à reeleição.

Este ano, Netanyahu manteve um conspícuo silêncio. Mas fontes dizem que ele tende a concordar com a mídia de direita próxima a seu partido Likud, que se inclinou a favor de Trump. É verdade, Trump fez declarações antissemitas e atraiu o apoio de neonazistas, mas é menos provável que ele pressione Netanyahu sobre um Estado palestino do que Hillary, que já fez uma dura crítica ao líder israelense devido à expansão de bairros judeus próximos a Jerusalém.

Ainda mais parcial a favor de Trump é o presidente egípcio, Abdel Fattah al-Sissi. O ditador se encontrou com os dois candidatos em Nova York no mês passado: enquanto Hillary questionou seu histórico de violações de direitos humanos e cobrou a libertação de um cidadão americano preso no país, Trump ofereceu apoio incondicional. Portanto, independentemente da hostilidade de Trump em relação ao Islã ou seus planos de restrição à imigração muçulmana, o regime de al-Sisi está torcendo por ele. Assim como o homem forte da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, outro aliado na Otan, que, como informou o jornalista do "Wall Street Journal" Yaroslav Trofimov, aprecia a tolerância de Trump em relação à sua repressão em massa contra opositores após uma tentativa de golpe.

Há alguns temas em comum aqui. Quanto menos comprometido o parceiro dos EUA é com a democracia liberal, e mais hostil a imigrantes, mais provavelmente seu governo é a favor de Trump. Aliados incomodados com sutilezas da diplomacia americana - seja a defesa de direitos humanos em ditaduras pró-EUA ou de um Estado palestino, ou uma abertura em relação ao Irã - tendem a ver Trump como um alívio. As fileiras daqueles horrorizados com sua figura estão mais restritas à Europa Ocidental e ao Nordeste da Ásia - embora os latino-americanos, que sofreram o destrutivo populismo de Hugo Chávez, tendem a ver Trump como uma versão americana desta pestilência.

Resumindo, há uma circunscrição no mundo a favor do estilo Trump de nacionalismo chauvinista, mesmo que seu slogan seja: "EUA em primeiro lugar". Não são poucos os amigos dos EUA que dariam as boas-vindas a um governo americano que ignore direitos humanos, favoreça a contenção do fluxo mundial de pessoas e capital, e divida amigos e inimigos em campos inequívocos. Se Trump perder, Orban, al-Sisi e que tais podem perder algum dinamismo, mas eles ainda estarão por aí. Hillary vai precisar de uma estratégia para lidar com eles.

Jackson Diehl é colunista do "Washington Post"

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