Os sinais da incongruência de Trump

Publicado em 12/01/2017 por Gazeta do Povo

O mandato do presidente Barack Obama acaba em 20 de janeiro, e Donald Trump já anunciou alguns dos escolhidos para preencher a linha de frente de seu governo. Ao que tudo indica, o futuro para os norte-americanos será muito diferente do que foi proposto durante a campanha de Trump. Se as próximas indicações seguirem a mesma linha das já anunciadas, serão anos tenebrosos.

De acordo com o Escritório de Publicações do Governo dos EUA, existem cerca de 9 mil cargos de confiança dentro da estrutura do governo federal. Destes, menos de 4,9 mil são ocupados por servidores de carreira, e outros 4,1 mil são de livre nomeação. No entanto, existem 689 cargos considerados de alto escalão dentro da administração pública dos EUA. Esses cargos terão um poder grande na construção das políticas públicas e na condução do estado. Desses nomes, 23 que já foram anunciados evidenciam que as promessas de Trump dificilmente serão cumpridas.

Até agora, os indicados para chefiar os ministérios de Trump têm visões muito distintas das do futuro presidente. Questões como déficit, comércio exterior, meio ambiente e até questões trabalhistas já se apresentam como futuros conflitos entre os chefes das principais pastas do governo.

Trump defendeu veementemente os trabalhadores em seus discursos. Só nos discursos?

Os homens de Wall Street - Wilbur Ross, indicado como secretário de Comércio, e Steven Mnuchin, indicado para o Tesouro - elogiaram o Acordo Transpacífico (TPP), inicialmente proposto por Barack Obama. Por outro lado, o futuro presidente, durante toda a sua campanha, criticou muito Wall Street e deixou claro que abandonaria o TPP. Ele também afirmou que iria acabar com o buraco negro que possibilitava a grandes investidores pagarem tão pouco imposto sobre o capital. Ross e Mnuchin, no entanto, já dizem que os impostos para os investidores vão cair ainda mais.

Durante a campanha, Trump enfatizou que iria cortar impostos e aumentar os gastos com defesa e infraestrutura. Essa combinação não será possível sem um crescimento do déficit norte americano. Mas quem vai pilotar esse avião parece discordar de Trump. O responsável pelas contas públicas será Mich Mulvaney, um republicano que já evidenciou sua posição contrária ao aumento do teto da divida. O impasse fiscal também está posto à mesa.

Tom Price, indicado para o cargo de secretário da Saúde, tem um grande conflito de interesse para exercer a sua posição. Enquanto esteve no Congresso, Price patrocinou 35 legislações relacionadas à saúde e, ao mesmo tempo, transacionou ações de mais de 40 empresas farmacêuticas, biomédicas e de planos de saúde. Empresas da área de saúde foram as principais doadoras para sua campanha em 2015 e 2016. Trump afirmava que iria remover a influência corporativa nas agências reguladoras, mas não está fazendo isso em seus ministérios.

Enquanto Donald refutava 99% da academia científica ao negar o aquecimento global, seu principal secretário, Rex Tillers, indicado para o cargo de secretário de Estado (equivalente ao ministro das Relações Exteriores), afirmava veementemente que as mudanças climáticas são causadas pelo homem. Rex é presidente da ExxonMobil e provavelmente consolidará as históricas relações entre a política externa norte americana e o gerenciamento de recursos estratégicos, como o petróleo. O novo secretário de Estado trabalha desde o início da sua carreira na Exxon e agora representará a diplomacia dos EUA ao redor do mundo.

Andrew Puzder, indicado para o cargo de secretário do Trabalho, é o CEO de uma rede de fast-food norte-americana. A sua empresa é reconhecida por baixíssimos salários e muitas violações da lei trabalhista. Durante a administração Obama, o Ministério do Trabalho descobriu que 60% das reclamações ligadas as indústrias de Puzder eram devidos a pagamentos menores que o salário mínimo. Para Puzder, ser a favor das empresas significa ser contra o trabalhador. Trump defendeu veementemente os trabalhadores em seus discursos. Só nos discursos.

A esperança é de que a descentralização do governo norte americano seja a principal fonte de resiliência para o país suportar quatro anos da administração Trump. E isso já se mostrou presente nas últimas eleições. Enquanto Trump se elegeu como presidente, Los Angeles, San Francisco, Seattle e outras grandes cidades votaram referendos para aumentar impostos que financiam sistemas de transporte público. Em cidades por todo o país, governos estão apoiando a construção de cooperativas, fundando bancos municipais e consolidando redes comunitárias que estão mudando a economia norte-americana. Os governos locais e estaduais serão os responsáveis por criar uma realidade independente dos planos confusos do governo federal.

De qualquer forma, será difícil Trump fazer o que prometeu para os seus eleitores com um gabinete declaradamente racista, corporativista, antiliberal e elitista. Esse é o principal risco da gestão Trump: ele não sabe o que ele não sabe. Ou, se sabe, ainda pior: mente.

Germano Johansson, engenheiro civil, é mestre em Planejamento e Políticas Públicas pela University of Southern California.

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