Pecado da carne

Publicado em 13/06/2017 por Folha de Londrina


Sérgio Ranalli/23-03-2017
Sérgio Ranalli/23-03-2017


A arroba do boi gordo caiu para R$ 128,25 na última sexta-feira, a menor cotação desde os R$ 128,20 de setembro de 2014, de acordo com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da Universidade de São Paulo. O cenário de baixos preços no setor preocupa produtores e acabou intensificado neste ano pela Operação Carne Fraca, que investigou denúncias de corrupção entre fiscais e alguns frigoríficos, e pela recente delação de executivos do Grupo J&F, proprietários da JBS, no qual afirmam que pagaram propinas para uma lista extensa de políticos, entre os quais o presidente Michel Temer.

Maior empresa de carnes do País, a JBS domina boa parte do mercado brasileiro. Por isso, a Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo) divulgou na segunda-feira, 12, que encaminhou no último fim de semana ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) um pedido de criação de uma linha de financiamento para pequenas e médias indústrias, para facilitar a reestruturação do setor.

O presidente executivo da Abrafrigo, Péricles Salazar, afirma que a estrutura da cadeia produtiva da pecuária de corte está concentrada em grandes empresas em alguns estados, mas que deve mudar nos próximos anos, com pequenos e médios frigoríficos com papel central. Ele também critica, no pedido ao BNDES, a política de "campeões nacionais" que garantiu à JBS a chance de crescer e comprar inúmeras indústrias pelo País, o que levou a tal domínio de mercado. "Todos estamos acompanhando o desenrolar na mídia e as consequências após a delação", diz. "Enxergamos que há uma oportunidade para que pequenos e médios frigoríficos tenham um novo espaço na mídia e no mercado", completa.

O executivo pede ao banco uma reunião para discutir o tema. "Não pedimos benefícios, mas uma linha de financiamento que possa ser acessada por pequenos e médios frigoríficos", conta. Salazar considera que essa migração de fornecedores para indústrias menores já ocorre, com animais que não são comprados pela JBS e acabam direcionados a outras empresas. "Sabemos que, para exportação, demora um pouco mais, mas no mercado interno já existe esse processo."

Na Abrafrigo, o conceito de pequeno e médio inclui o abate de 100 a 900 bois por dia. A ociosidade hoje está em 20%, diz o presidente da entidade, o que já permite esse direcionamento. "Se aumentar o número de plantas, devem ficar mais estáveis os preços e o mercado", cita. "Os frigoríficos que já existem, se tiverem acesso a novos recursos, podem crescer mais", afirma Salazar.



Mal para produtores
O diretor de pecuária da Sociedade Rural do Paraná (SRP), Ricardo Rezende, diz que estados com concentração de frigoríficos de apenas um grupo têm enfrentado dificuldades. "A JBS perdeu a confiança do produtor e ainda determinou que só faz pagamentos 30 dias depois da entrega."

Ele afirma que alguns governadores do Centro-Oeste estudam reduzir a alíquota de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) para o setor para facilitar as vendas por meio das divisas. "É melhor arrecadar menos, mas ao menos arrecadar algo, porque o produtor pode nem querer vender", diz Rezende. "O pecuarista já é, por natureza, muito cauteloso. Se não recuperarem a credibilidade, ele pode parar de vender ou vender só para pagar a manutenção de custos", completa.

Sobre os preços baixos, o diretor da SRP também reclama. A arroba custava R$ 128,25 na última sexta-feira, 14% a menos do que o pico deste ano, de R$ 149,91 em janeiro. Porém, diz que o produtor é prejudicado em benefício de terceiros. "O consumo bovino caiu muito pouco e o que diminuiu foi por causa da crise, antes da Carne Fraca. O preço da carne no supermercado continua o mesmo e alguém na cadeia está ganhando, mas não é o produtor", explica, ao lembrar que as exportações também não foram reduzidas. A JBS foi procurada pela reportagem, via assessoria de imprensa, mas não deu retorno até o fechamento da edição.

Plantas sucateadas
A concentração de mercado na mão de poucas empresas fez com que muitas plantas menores fossem desativadas ou ficassem sucateadas. A opinião é do diretor da Cooperativa de Produtores de Carnes Nobres do Norte do Paraná (Copcarnes), Carlos Henrique Montemor. "É difícil falar em recomposição do mercado se não houver linhas de financiamento para atualizar as indústrias", diz.

O diretor da cooperativa, que detém uma marca de carnes nobres, afirma que os preços ao produto caíram muito e há uma quantidade grande de animais disponíveis. "Aqueles que não têm um bom contrato de venda estão à mercê de especuladores", cita.

O diretor de pecuária da Sociedade Rural do Paraná (SRP), Ricardo Rezende, afirma que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) precisa disponibilizar linhas de financiamento para ampliação de pequenos e médios e para a entrada de novos grupos. "Precisa trabalhar nas duas pontas, porque temos pequenos em São Paulo, Minas Gerais e Paraná que têm condição de crescer."

Montemor considera que o produtor foi o grande prejudicado com a crise política e econômica neste momento. "Ele é que investe na produção, fica com todo o risco e, quando precisa comercializar, acaba na mão de terceiros que geraram toda essa bagunça", encerra. (F.G.)