O perigo das gravações - Lúcio Flávio Pinto

Publicado em 26/05/2017 por Lúcio Flávio Pinto

Andrea, irmã do senador Aécio Neves, afastado do cargo pelo ministro Edson Fachin, do STF, e sua principal auxiliar, encontra-se presa numa penitenciária em Minas Gerais. A Polícia Federal a grampeava, com autorização judicial, para produzir provas de corrupção do ex-presidente do PSDB. Uma das conversas gravadas foi a que ela teve com o jornalista Reinaldo Azevedo.

A conversa é mais do que o contato de um jornalista com sua fonte. Há certa conivência de Reinaldo com Andrea e críticas à revista Veja, que abrigava o seu concorrido blog, virulento contra o PT. Abrigava: ontem, Reinaldo rompeu o contrato que tinha com a revista, que concordou em encerrar a relação profissional. Foi reação imediata à divulgação do conteúdo da conversa (veja abaixo).

Tem razão o jornalista quando diz que Andrea – e não ele – era quem estava sendo monitorada. Sustenta que a divulgação é obra do procurador geral da república, Rodrigo Janot. O vazamento – sustenta o jornalista –seria um escândalo em qualquer país do mundo porque viola o sigilo da fonte, o que é verdade. No Brasil, o Estado autoritário não o respeita e as autoridades fazem o que querem do seu poder.

O ato de vazamento tem que ser apurado e identificado o autor da divulgação. Trata-se realmente de um crime. Mas a conversa entre Reinaldo e Andrea é um ato de interesse público – e depõe contra o jornalista. Um bom profissional da imprensa deve conversar em “off” da mesma maneira como se manifesta publicamente. Seguindo essa regra, nada pode incriminá-lo, mesmo que seja manobra ilegal.

Episódio semelhante aconteceu, em 2012, com Ricardo Boechat. Foi gravada uma conversa íntima demais e contrária à ética jornalística que ele teve com Paulo Marinho, assessor do empresário Nelson Tanure, que cresceu favorecido pelo governo Collor. Com a divulgação da fita, Boechat foi demitido de O Globo e da TV Globo.

A situação não é rara no jornalismo, infelizmente.

A CONVERSA ENTRE COM ANDREA NEVES

Andrea Neves – Agora, que está acontecendo na Veja, o que o pessoal fez…

Reinaldo Azevedo – Ah, eu vi. É nojento, nojento. Eu vi.

Andrea Neves – Assinaram todos os jornalistas e vão pegar a loucura desse cara para esquentar a maluquice contra mim.

Reinaldo Azevedo – Tanto é que logo no primeiro parágrafo, a Veja publicou no começo de abril que não sei o que, na conta de Andrea Neves. Como se o depoimento do cara endossasse isso. E ele não fala isso.

Andrea Neves – Como se agora tivesse uma coleção de contas lá fora e a minha é uma delas.

Reinaldo Azevedo – Eu vou ter de entrar nessa história porque já haviam me enchido o saco. Vou entrar evidentemente com o meu texto e não com o deles. Pergunto: essas questões que você levantou para mim, posso colocar como se fosse resposta do Aécio?

Andrea Neves – Nós mandamos agora para a Veja uma nota para botar nessa matéria.

Reinaldo Azevedo – Não quer mandar para mim também?

Andrea Neves – Mando.

NOTA DIVULGADA POR REINALDO  

Andrea Neves, Aécio Neves e perto de uma centena de outros políticos são minhas fontes.

Trechos de duas conversas que mantive com Andrea, que estava grampeada, foram tornadas públicas. Numa delas, faço uma crítica a uma reportagem da VEJA e afirmo que Rodrigo Janot é pré-candidato ao governo de Minas e que estava apurando essa informação. Em outro, falamos dos poetas Cláudio Manuel da Costa e Alvarenga Peixoto.

Fiz o que deveria fazer: pedi demissão — na verdade, mantenho um contrato com a VEJA e pedi o rompimento, com o que concordou a direção da revista.

Abaixo, segue a resposta que enviei ao BuzzFeed, que vai fazer ou já fez uma reportagem a respeito. Volto para encerrar. Mesmo!

Comecemos pelas consequências.

Pedi demissão da VEJA. Na verdade, temos um contrato, que está sendo rompido a meu pedido. E a direção da revista concordou.

1: não sou investigado;

2: a transcrição da conversa privada, entre jornalista e sua fonte, não guarda relação com o objeto da investigação;

3: tornar público esse tipo de conversa é só uma maneira de intimidar jornalistas;

4: como Andrea e Aécio são minhas fontes, achei, num primeiro momento, que pudessem fazer isso; depois, pensei que seria de tal sorte absurdo que não aconteceria;

5: mas me ocorreu em seguida: “se estimulam que se grave ilegalmente o presidente, por que não fariam isso com um jornalista que é crítico ao trabalho da patota?;

6: em qualquer democracia do mundo, a divulgação da conversa de um jornalista com sua fonte seria considerada um escândalo. Por aqui, não;

7: tratem, senhores jornalistas, de só falar bem da Lava Jato, de incensar seus comandantes;

8: Andrea estava grampeada, eu não. A divulgação dessa conversa me tem como foco, não a ela;

9: Bem, o blog está fora da VEJA. Se conseguir hospedá-lo em algum outro lugar, vocês ficarão sabendo;

10: O que se tem aí caracteriza um estado policial. Uma garantia constitucional de um indivíduo está sendo agredida por algo que nada tem a ver com a investigação;

11: e também há uma agressão a uma das garantias que tem a profissão. A menos que um crime esteja sendo cometido, o sigilo da conversa de um jornalista com sua fonte é um dos pilares do jornalismo.

Encerro. No próximo 24 de junho, meu blog completa 12 anos. Todo esse tempo, na VEJA. Foram muitos os enfrentamentos e me orgulho de todos eles. E também sou grato à revista por esses anos.

Nesse tempo, sob a direção de Eurípedes Alcântara ou de André Petry, sempre escrevi o que quis. Nunca houve interferência.

O saldo é extremamente positivo. A luta continua.