Philip Kotler imagina um outro capitalismo

Publicado em 05/01/2016 por Valor Online

Bloomberg
Em seu livro, Kotler lista 14 deficiências do capitalismo: "Vivemos em uma era de distribuição de riqueza semelhante à dos faraós ou da corte de Luís XIV"

Philip Kotler quer defender o capitalismo dos capitalistas. Autor de "Administração de Marketing", que formou várias gerações de executivos no mundo todo, ele vem a público propor reformas no sistema econômico que ajudou a consolidar.

"Capitalismo em Confronto" é um alerta contra os excessos do capitalismo, da perspectiva de um economista exposto a influências tanto de liberais como de intervencionistas, tendo estudado com Milton Friedman, representante do pensamento do livre mercado, e o keynesiano Paul Samuelson.

Kotler, no entanto, não fica em cima do muro, hesitando entre as propostas concorrentes de seus professores. Entre os defensores do "capitalismo cowboy" e desregulado e os partidários do "capitalismo consciente", ele se alinha ao segundo grupo.

A posição de Kotler fica mais clara quando ele estabelece identificações com modelos em vigor. Seu roteiro para um "capitalismo sentimental", expressão que prefere, tem pontos em comum com o trabalhismo britânico e sua política de bem-estar social e com o Estado provedor dos países escandinavos.

Apesar das críticas ao capitalismo na sua versão sem freios, Kotler mantém a fé no regime e não acredita nas previsões, feitas a partir da crise de 2008, de declínio do Ocidente. Ele registra a definição de Keynes: "O capitalismo é a extraordinária convicção de que os homens mais sórdidos, com os motivos mais sórdidos, de alguma maneira atuarão em benefício de todos". Pode ser insatisfatório, ele argumenta, mas o sistema é melhor do que todos os outros já testados.

O livro aborda 14 deficiências do capitalismo, dedicando um capítulo a cada uma. As principais são: não resolve o problema da pobreza, gera desigualdade de renda e riqueza, não paga salário digno a bilhões de trabalhadores, talvez não gere empregos suficientes, explora o meio ambiente, cria ciclos econômicos de instabilidade, enfatiza o individualismo à custa da comunidade, estimula o endividamento e o consumismo e permite a associação de políticos e empresários contra os interesses da maioria.

Kotler tem em mente os Estados Unidos e cita de passagem outros países, sobretudo para fazer comparações, favoráveis e desfavoráveis, com a economia americana. Embora o Brasil seja ignorado, os dois capítulos mais densos, sobre pobreza e desigualdade, trazem reflexões que poderiam ser úteis ao debate no país.

Um dado, da Oxfam, organização internacional que trabalha contra a pobreza, resume a gravidade do problema da distribuição de riqueza no mundo: em 2014, as 85 pessoas mais ricas tinham um capital maior do que os meios somados dos 3,5 bilhões de pessoas mais pobres. "Isso significa que hoje estamos vivendo em uma era de distribuição de riqueza semelhante à dos faraós do antigo Egito ou da corte de Luís XIV antes da Revolução Francesa", afirma Kotler.

Para mudar essa realidade, Kotler recomenda, entre outras medidas, a maior tributação dos mais ricos. Cita o caso do bilionário Warren Buffett, que declarou sentir vergonha de, proporcionalmente, pagar menos imposto do que sua secretária. Elogia também a atuação de um grupo americano chamado Patriotic Millionaires, que propõe a intensificação da tributação progressiva, com alíquotas maiores para os mais ricos, e o fim das brechas tributárias.

Outras medidas seriam o aumento do salário mínimo e a adoção de mecanismos de transferência de renda. Kotler também advoga a taxação elevada de heranças e endossa as palavras de Buffett: "Uma pessoa muita rica deve ser capaz de deixar para seus filhos o suficiente para que façam qualquer coisa, mas não o bastante para que não façam nada". Coerentemente, louva a iniciativa de Bill Gates, que persuadiu dezenas de bilionários a deixar grande parte de sua fortuna para entidades filantrópicas.

A argumentação de Kotler, sem pretensão teórica, está em linha com o trabalho de Thomas Piketty, que, em "O Capital no Século XXI", diz que a desigualdade tem crescido porque a taxa de retorno sobre o capital é maior do que a taxa de crescimento da economia. "O livro de Piketty está deixando os mais abastados preocupados, porque não conseguem derrubar suas premissas."

Para Kotler, o que esses mais abastados nem sempre percebem é que também são vítimas do sistema que os privilegia. Ele lembra que a desigualdade reduz a taxa de crescimento econômico, uma vez que os mais pobres consomem pouco e têm baixa produtividade. Além disso, "o aumento da desigualdade desgasta os vínculos sociais e pode conduzir ao conflito de classes".

O livro sustenta que, no limite, a elite econômica ameaça corromper a democracia. "Os ricos acham que sua remuneração descreve seu valor e se apoiam na riqueza e na influência política para derrotar medidas democráticas destinadas a restringi-los ou tributá-los de modo suficiente. Por conseguinte, a democracia está correndo o risco de ser destruída pelo capitalismo."

Vago nas proposições e sem se deter nas estratégias para vencer as inevitáveis resistências, "Capitalismo em Confronto" tem o mérito de sugerir uma ampla agenda reformista, para, com a entrega dos anéis do sistema, salvar-lhe os dedos.

"Capitalismo em Confronto"

Philip Kotler. Tradução: Claudia Gerpe Duarte. 366 págs., R$ 45,00 (Best Business)

Oscar Pilagallo é jornalista e autor de "História da Imprensa Paulista" e "A Aventura do Dinheiro".