Pontos de uso de crack se confundem com bocas de venda da droga na capital

Publicado em 18/06/2017 por Estado de Minas

Leandro Couri/EM/D.A.Press
Grupo nas proximidades da Pedreira Prado Lopes, na Região Noroeste de BH. Área de tráfico em torno da qual gravitam várias comunidades de usuários (foto: Leandro Couri/EM/D.A.Press)

Os olhares vão vasculhando o chão à procura de tocos de cigarros, mas principalmente na esperança de achar pequenas pedras de crack eventualmente perdidas. As mãos carregam latas ou cachimbo artesanais, normalmente feitos com pedaços de caneta ou de canudos de ferro. Os corpos perambulam, de um lado para o outro, sem rumo. Esse vaivém que gira em torno da droga é cena  comum em pontos de Belo Horizonte onde fica claro o consumo do crack e a degradação que ele causa. São muitas as histórias e vidas espalhadas em "bocas" como o entorno da Rua Araribá, no Bairro Lagoinha, na Rua Conselheiro Rocha, no Bairro Floresta, no entorno da rodoviária, no Centro, embaixo de viadutos e em outras áreas em Belo Horizonte.


Um desses enredos é o de Carlos, de 39 anos, cuja trajetória de dependência se construiu em torno da Pedreira Prado Lopes, na Lagoinha, conhecida pela sigla PPL. Tentando se livrar do vício que o aprisiona desde 2006, o desempregado está há três semanas sem consumir a droga, o que já é tratado por ele como uma vitória. Natural de Januária, no Norte de Minas, ele partiu para Belo Horizonte para tentar emprego, mas não conseguiu. Foi aí que se jogou de vez no mundo das drogas. "No interior, eu era usuário de maconha e cocaína, e não quis encarar meu pai, que era muito autoritário. Quando vim para BH e não consegui emprego, comecei a usar crack", contou. A primeira vez que experimentou a pedra foi com um amigo que morava com ele em Sabará, na Grande BH.

Segundo Carlos, a droga virou sua vida ao avesso. Para manter a dependência, chegou a se desfazer de geladeira, de suas roupas e até das lâmpadas de casa. "Por causa da droga, fiquei 19 anos sem visitar meus pais. Quando fui, meu pai tinha morrido e nem fiquei sabendo", comentou. Em setembro do ano passado ele começou a frequentar uma clínica de reabilitação.

Seu relato é um testemunho da dificuldade da recuperação, mas também da importância da persistência. "Hoje eu estou lutando para ser um ex-usuário. Se a pessoa buscar ajuda, pode ser que tenha apoio, mas nunca vai saber se vai conseguir, pois há poucos lugares para isso. Mas digo a quem está nessa situação para não desistir, que continue lutando. Somente nós, usuários, podemos começar", afirmou.

Superar o obstáculo da pedra também é um desafio para o morador de rua William, que vive na região da Lagoinha. Ele partiu de Itajubá, no Sul de Minas, à procura de trabalho na capital. No interior, começou a usar drogas ainda aos 16 anos. Como não tinha o crack na forma que existe hoje, esquentava cocaína na colher para fumar. "Cheguei a vender o marmitex que ia comer para comprar droga. Quando recebia qualquer quantia em dinheiro, até mesmo 10 centavos, já fazia as contas de quanto ia precisar para comprar mais. Precisava preencher o vazio que tinha dentro de mim, e fazia isso com a droga. Mas ele voltava logo depois da saída do 'trago'", comentou.


SUSTO Em BH, o vício se intensificou e Willian passou a viver na rua. Agora, dá os primeiros passos na batalha contra a dependência. "Tomei um choque quando vi os moradores de rua todos sujos e nesta vida. Eu me vi na mesma situação, ficava do mesmo jeito. Resolvi parar e comecei a frequentar alguns programas de ressocialização. Desde o início do mês passado não uso", contou.

É mais uma etapa da luta de quem já passou por vários centros terapêuticos, mas não conseguiu se livrar das drogas. "Para alguns adianta, para outros não. Eu não queria estar lá. Ia para os centros só para descansar o corpo. Só isso", contou. "Hoje fico na luta diária. O dia é muito extenso, vai da 0h de hoje até a 0h de amanhã. Quando mudamos a rotina, as amizades são a melhor forma de parar", definiu.

 

Tráfico e consumo desafiam autoridades

 

Os pontos de uso de crack em Belo Horizonte se misturam às "bocas" de venda da droga. Em torno delas os usuários se reúnem durante todo o dia, sem distinção de horário. E consomem a pedra em grupos ou sozinhos, sem se preocupar com a passagem de carros e pedestres.

A Pedreira Prado Lopes se tornou um ponto de atração de dependentes pela concentração da droga. Na Rua Araribá, nas imediações, dezenas de usuários se espalham pela calçada. Sujos, a maioria anda em trapos, pois só conserva consigo coisas que não têm qualquer valor para a venda. O resto vira moeda para a pedra. O consumo é intenso e o cachimbo passa de mão em mão.

Apesar de tudo isso ocorrer à luz do dia, inclusive diante de câmeras do sistema público de videomonitoramento, o consumo transcorre livremente, e naturalmente a pedra não "brota" nesses espaços. Por eles transitam com certa tranquilidade traficantes, que passam a droga a todo instante para um público consumidor ávido pelo próximo trago.

Um desafio para as ações da Polícia Militar. De acordo com o major Flávio Santiago, chefe da Sala de Imprensa da corporação, a PM tem feito ações de orientação, de condução de usuários pegos em flagrante e também de traficantes. "A PM tem agido em frentes importantes de trabalho. Primeiro, a prevenção, na essência com o Programa Educacional de Resistência a Drogas (Proerd), que tem mais de 3 milhões de jovens formados. O segundo ponto importante é o combate ao tráfico de forma sistemática. Por semana, uma tonelada de drogas é apreendida", explicou.


ENXUGAR GELO Segundo o major, na maioria das vezes, os usuários presos em flagrante consumindo a droga são encaminhados à delegacia, mas acabam sendo soltos e voltando para os mesmos locais. "Nos últimos cinco anos, a PM vai mantendo a condução, apesar do fato de o usuário não ficar preso. Mas, pelos efeitos da fissura, eles se envolvem muito em roubos e furtos", afirma. Mas o militar chama a atenção para a necessidade de interação com outros órgãos, de assistência social e saúde pública, para enfrentar o problema.

Sobre os locais de consumo em BH, o major reconhece que os usuários se reúnem próximo a pontos onde a oferta de droga é maior. "Eles tangenciam alguns aglomerados, pela proximidade com alguns pontos onde há tráfico. Nesses pontos, como a Lagoinha e as proximidades da Pedreira Prado Lopes, fazemos vários conduções. Mas precisamos de outras ações que não são da polícia, como acompanhamento, redução de danos, acolhimento, monitoramento, entre outros", completou.

 

Palavra de especialista

Robson Sávio, cientista social, integrante do Núcleo de Estudos Sociopolíticos da Pontifícia Universidade Católica (PUC Minas) e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública

 

A lógica dos grupos e a maquiagem da cidade

"O número de usuários de crack no país é muito grande. Essas pessoas se aglomeram para a manutenção do próprio vício e porque se sentem mais seguras juntas, já que, se o grupo é muito pequeno, está mais vulnerável à repressão policial. Portanto, dispersá-los da cracolândia só vai espalhá-los pela cidade. A estratégia adotada pelo prefeito João Doria de São Paulo de 'dispersar' os usuários de crack é uma tática antiga, usada em todo o mundo desde o século 18. A ideia é ter uma cidade 'limpa', ou seja, retirar tudo o que incomoda. Hoje, o que incomoda é o usuário de droga, o pedinte, o morador de rua, mas, principalmente, o usuário de crack. Doria aplicou a estratégia característica de pessoas que pensam na cidade como um berço para a classe média. Trata-se de uma medida totalmente ineficiente, que não soluciona o problema da desigualdade, apenas tenta mascará-lo. A presença desses dependentes de crack nas ruas evidencia um problema social e não um problema de segurança pública."